27/06/13

Como se mede o Amor?





Quantas vezes já disse ou ouviu a expressão "eu amo-te mais" ou "tu não me amas tanto quanto eu"?
Quantas vezes não falou, com alguém sobre este tema?
Acha possível medir o Amor?
Existe alguma forma de medir este sentimento?
Mede-se como?
Pelos gestos... Atitudes...
Olhares...
Palavras...
Existe algum padrão de comportamento para as pessoas que amam?

Vamos imaginar que num casal, um deles é muito romântico e valoriza o romantismo, mas outro é o oposto e não liga nenhuma ao romantismo. Quer dizer que o romântico ama mais?
Faz-lhe sentido concluir isto?
É natural que o romântico fique triste, pois gostava de "receber o que dá", mas isso determina o amor?
As pessoas são todas diferentes! Essas diferenças fazem com que tenham formas também diferentes de expressar as emoções. O que não significa que o sentimento seja menor, é apenas expressado de forma diferente.

Quando se está numa relação e se sente um desequilíbrio, talvez seja importante "olhar de fora". Muitas vezes o sentimento está lá, contudo, a expectativa criada à volta do que é o Amor,  leva à frustração e ao sentimento de vazio. É como se procurasse algo inexistente...
É importante ter consciência das diferenças que perfazem um casal. É importante reconhecer as suas necessidades e as do seu parceiro. Aceitando as diferenças e procurando em conjunto, um partilha e ajustamento que leve ao equilíbrio.
Não temos que mudar ninguém, mas podemos ajustar-nos, sem fugir à nossa personalidade, contribuindo para uma melhor relação.

O Amor mede-se?
O Amor constrói-se!

"Não se pode medir a quantidade de amor! 
Não há muito ou pouco amor... Há Amor!"


Débora Água-Doce
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21/06/13

Sorte ou Paixão?




Muitas vezes ouço a expressão “tiveste sorte” ou “fulano x teve sorte”. Mas será que é sorte?
Será que nenhuma dessas pessoas lutou para atingir o seu sonho?
Hoje trago-vos uma história que poderá ser interpretada como sorte, como persistência, ou como as duas, depende da sua leitura…
É uma história real!

Tive sorte? Muitos dirão que sim… Muitos dizem-me que sim. Mas eu acredito que não foi sorte! Acredito na persistência, na capacidade de ir atras e nunca desistir dos nossos sonhos.
Fiz toda a faculdade como trabalhadora-estudante, de outra forma não teria tido oportunidade de a frequentar… Lembro-me dos dias difíceis, dos dias em que estava muito cansada e só me apetecia ir dormir mas tinha que estudar, lembro-me dos dias em que os meus colegas saíam e eu ía trabalhar… Lembro-me dos dias em que o cansaço me vencia e só me apetecia desistir, mas… O sonho era superior ao cansaço, muito superior! Conclui o curso! Sem desistências!
Findo este processo, chegou o momento do estágio… Todos à minha volta me diziam que era quase impossível conseguir trabalho como Psicóloga, “não tens cunhas nessa área, diziam-me”…
Enviei durante quase 2 anos currículos diariamente e nada… Cheguei por momentos a acreditar que era impossível! Um dia, decidi arriscar tudo! O meu emprego foi durante 3 meses procurar trabalho!!! Começava de manhã e terminava à hora de ir dormir, fazia horas extra ;)
Foram os 3 meses mais sufocantes da minha vida, nunca tinha estado sem trabalhar… Enviava uma média de 50 CV’s diários… Que loucura! Fazer cartas de apresentação adequadas a cada clínica, a cada instituição, a cada empresa… O desespero!
Um dia, início de Setembro, quando a esperança já teimava em fugir, recebi um telefonema a marcar uma entrevista para o dia seguinte. Será possível? Pensei.
No dia seguinte lá fui, com a esperança no olhar. A conversa corria muito bem, até me ser perguntado o porquê de eu querer tanto uma oportunidade e nesse momento eu dar por mim a deixar as lágrimas cair… A emoção de sentir uma oportunidade perto de mim era tão grande que não consegui evitar… “estou tramada”, senti. Saí de lá com a sensação de que tinha perdido uma oportunidade até porque se despediram de mim dizendo: “então pronto, se já não ligarmos, boa sorte para o futuro”!
No dia seguinte de manhã, fui acordada com um telefonema, era o Sr. que me tinha entrevistado a dizer que começava na 2ª feira… Não sei o que senti… No momento nem acreditei… Senti que a estrelinha estava lá para mim!
Foram 3 meses de procura de trabalho que mudaram a minha vida!!!
Na semana a seguir lá estava eu a dar os primeiros passos na carreira que tinha sonhado para mim. Era mágico! Lembro-me de como me empenhava… As noites que passava a fazer relatórios, a ler, a estudar… Eu queria mesmo ser merecedora daquela oportunidade!
Passados uns dias, recebi outro telefonema, de um Psicólogo que não podia dar-me emprego mas gostava muito de me poder ajudar de alguma forma. Lá fui ter com ele e tornou-se meu supervisor, só porque acreditava em mim.
E assim fui aprendendo e descobrindo a arte da capacidade de Sonhar!
Tive sorte? Tive, mas conquistei-a!
Não acredito muito na sorte! Acredito na persistência. Na capacidade de irmos atras dos sonhos, na resiliência! Acredito na capacidade de ultrapassarmos os obstáculos que se cruzam no nosso caminho. Na capacidade de ouvir um “não” e continuar à procura de um ”sim”. Acredito no mérito! Acredito na Paixão! Sinto que só se pode ser realmente bom a fazer o que quer que seja, se realmente colocarmos paixão naquilo que fazemos.
Não acredito que a nossa sorte está dependente dos outros! A sorte está em nós!!! A sorte está em lutar por aquilo que queremos.
Sei que muitas vezes é difícil e só apetece desistir, mas é importante não baixar os braços! É importante continuar a viagem!
Não desista dos seus sonhos e coloque paixão em tudo o que fizer… A Sorte vai aparecer!


Débora Água-Doce
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13/06/13

Ciúme… Vivo por ti!




A Maria chegou até mim preenchida por um sentimento de sufoco “são ciúmes”…”não consigo controlar os ciúmes”…”sou muito obsessiva”(sic).
Contou-me que examina o telemóvel do namorado de uma ponta a outra, confirma tudo o que consegue. Não suporta que trabalhe com mulheres… Desconfia sempre que ele está interessado noutra pessoa. Não suporta quando ele se atrasa um pouco no telefonema do almoço, quando acontece esse atraso, Maria, automaticamente fantasia que ele estará com outra mulher.
Quando ele sai mais tarde do trabalho, Maria já imaginou vários cenários e quando ele chega, já não está feliz à sua espera… Surge uma discussão… O tempo que deviam aproveitar para estar juntos a partilhar, é usado para se magoarem e afastarem.
A Maria tem noção, que os seus pensamentos são apenas pensamentos, não são reais, contudo, não consegue evitá-los e inevitavelmente sofre… E como sofre… É uma dor insuportável… Vivencia tudo como se fosse real!
A Maria, fala-me dos seus medos como se fossem reais, como se estivessem a acontecer…
Vive focada no namorado e na relação! Esquecendo-se de si…
Há dias confessou-me que já nem se cuida como antes, deixou de conseguir olhar para o espelho e sentir-se bonita!
“Preciso curar-me deste ciúme, desta insegurança!”(sic).

Existem vários tipos de ciúmes, no entanto, os mais comuns são aqueles vivenciados numa relação a dois, tal como a relação da Maria.
Já todos, em algum momento da nossa vida sentimos ciúme! O ciúme é um sentimento inerente ao ser humano e, embora seja quase sempre conotado negativamente, existem formas positivas de lidar com ele e muitas vezes é saudável para a relação.
Mas e quando o ciúme é como o da Maria?
Quando é vivenciado assim, pode não só destruir a relação do casal, como afetar negativamente qualquer pessoa, não só aquela que é incapaz de controlar o ciúme, como aquela que é alvo do mesmo. O ciúme está frequentemente associado a comportamentos paranóicos, de desconfiança e obsessivos, em que um elemento do casal tenta controlar o outro ao máximo, limitando o que faz, com quem se relaciona…
É necessário ter consciência de que este tipo de ciúme não é saudável, nem para si, nem para a relação.
Já pensou que os ciúmes que sente, por exemplo, quando o seu namorado fala de uma certa colega de trabalho ou quando vai tomar café com aquela amiga podem ser um indicador de que falta algo na vossa própria relação?
Gostava que ele a convidasse de vez em quando apenas para um café? Gostava que ele partilhasse consigo o mesmo tipo de conversas que partilha com os amigos?
Se sim, transforme os ciúmes em dedicação e viva mais a sua relação, fale das suas necessidades ao seu namorado e peça-lhe que ele faça o mesmo.
Os ciúmes não só criam sentimentos de frustração, raiva e insegurança na relação, como potenciam a baixa auto-estima.
Não permita que o ciúme promova sentimentos negativos sobre si própria. Mude aquilo que quer mudar em si, mas faça-o por si e não por ele!
Cuide mais de si!
Substitua o “vivo por ti!” por “vivo por mim!”!!!

Débora Água-Doce


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10/06/13

Os Homens também choram!




Ainda em pequena reparei, que o meu pai chorava! Vi-o muitas vezes emocionado com qualquer programa televisivo que pudesse tocar no coração…
Aos olhos de uma criança, o pai é uma figura inabalável, contudo, para mim sempre ficou claro que também é uma figura sensível. A sua expressão séria era substituída pela expressão da emoção que vivenciava naquele momento e… Como era mágico ver a máscara cair… Os homens também choram. Desde cedo aprendi essa lição.

Para mim, o choro não é sinónimo de fraqueza. Muito pelo contrário. É sinónimo de humanidade, sensibilidade e afeto.
Desmistifiquemos a ideia de que apenas as mulheres choram e são sentimentais. Os homens não são assim tão diferentes das mulheres. Também eles sofrem de dores emocionais, são ciumentos, precisam de colo…
O homem é um ser inteiro, com vícios e virtudes, forças e fraquezas, sucessos e fracassos, emoções e convicções. É um ser sociável, humano, ético. É um ser com um passado e um presente.
Ser Homem é ser uma parte que completa outra!


Débora Água-Doce
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30/05/13

Eu ou o que esperam de mim?


“Ao longo dos anos que namorei e estive casada com o Luis (nome fictício), tentei perceber qual o tipo de mulher que ele gostaria. Se loura, se morena, se burra, se inteligente… Sempre achei que eu não era quem ele amava…
A maior parte do tempo pensei que não estava à altura dele, desvalorizava-me, era insegura, tinha medo, principalmente medo de que me abandonasse.
Assim desta forma, dei o melhor de mim, fui a melhor esposa que consegui, sempre prendada, boa dona de casa, tentei estar sempre cuidada e bonita, embora pensasse que nem isso me valia de nada, como não valeu.
Esta semana recordei os meus tempos de adolescente, de como me sentia o patinho feio… Usava óculos, não vestia roupas de marca como os betinhos que se juntavam no recreio no sítio do costume. Nesse grupo também estava o Luis, mas longe de eu pensar que um dia seria sua mulher. Nessa altura, observava as raparigas desse grupo e pensava em como gostava de ser assim, como gostava de pertencer ao grupo dos melhores, dos maiores, dos giros e dos bem vestidos.
Passados todos estes anos e após alguns reencontros, constatei que os betinhos e betinhas hoje são gordos e gordas, carecas, velhos e alguns deles com vidas completamente destroçadas.
O patinho feio, afinal é uma linda mulher, com uma vida pacata é certo, com desilusões é um fato, infeliz por um lado (desemprego e divórcio) mas feliz por ter uma linda família, uma casa e um filho saudável e maravilhoso…
Contudo, todos os dias habitam em mim questões para as quais ainda não encontrei respostas:
- Porque não fui feliz no casamento?
- O que tenho eu de errado? Ou serão eles?
- É assim tão difícil ser feliz?
- É assim tão difícil amar e ser amada?
Estou exausta…”

Este é o desabafo que a Luísa (nome fictício) faz para o papel e decide partilhar comigo…
Eu e a Luísa estamos nesta viagem há aproximadamente um ano. Recordo-me de ter chegado até mim completamente destroçada e com a auto-estima destruída. Nessa altura apenas a desilusão da separação era tema de consulta… Muitas vezes nem existia assunto, a dor era insuportável e apenas chorava…
Como se não bastasse, enfrentou outra perda, o desemprego. A empresa onde trabalhava não dispunha de verbas para a manter em colaboração.
- “Não consigo Débora!” Assim me revelava o seu desespero.
Posto isto, e após muita incidência nestes lutos, surgiu o caminho que levaria ao “eu pelos meus olhos” e não ao “eu pelos olhos dos outros”.

Devagarinho fomos tocando na auto-estima e criando a autonomia necessária para viver sem o marido. Sentia-se incapacitada para fazer imensas coisas, recordo-me da sua felicidade por exemplo, quando simplesmente conseguiu comprar um Smartphone sozinha e da sua surpresa por perceber que conseguia aprender a utilizá-lo sem ajuda!

O descobrir “quem sou eu”, “o que realmente gosto”, “o que me realiza” em vez de “como me vêem”, “o que devo fazer”, ”o que esperam de mim” levou-nos à consciência de que o patinho feio, afinal, de feio não tem nada, muito pelo contrário.

É certo que ainda existe um caminho a percorrer até ao nosso destino, existem questões que ainda não dão descanso à Luisa, contudo, é certo também que o ponto de partida há muito que ficou para trás.
Tal como a Luisa viveu quase 40 anos da sua vida a desejar ser como os outros, a tentar ser perfeita, a tentar ser o que achava que os outros esperavam de si, deixando a sua identidade esquecida, também muitas outras “Luisas” o fizeram e ainda fazem.
Muitas outras “Luisas” vivem na esperança do que será o amanhã, o amanhã em que se sentirão amadas, ao mesmo tempo que deixam o presente passar… Não o vivem. Perdendo a oportunidade de serem felizes hoje!
Perdendo a oportunidade de procurar dentro delas a felicidade, enquanto a procuram constantemente no exterior!
A todas as “Luisas” sugiro que não sejam tão duras consigo próprias! Sugiro que se permitam olhar para “dentro”, aceitando-se!
Só aceitando é possível amar.

Como complemento a esta crónica sugiro a leitura das cronicas Apaixone-se por si! Parte I e II



Débora Água-Doce   
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23/05/13

O segredo da felicidade



Há uma antiga história sobre os Deuses e a Felicidade. Conta essa história que os Deuses tinham receio que os humanos fossem perfeitos, pois, se assim fosse, deixavam de ser precisos. Posto isto, decidiram reunir-se para decidir o que fazer. O mais sábio dos Deuses disse:
- Vamos dar aos Homens tudo o que pudermos, menos o segredo da felicidade.
- Mas os Homens são seres inteligentes, vão acabar por descobrir o segredo. – disseram os restantes Deuses.
- Não, isso não acontecerá! Vamos esconder a felicidade num sitio onde eles nunca a irão encontrar: dentro deles! – disse o sábio.

A felicidade está dentro de si!
A felicidade está dentro de mim!
A felicidade está dentro de todos nós!
Procure-a dentro de si! É errado procurar a felicidade no que o rodeia.
Muitas vezes pensamos: Quando acabar o curso, serei feliz! Quando casar serei feliz! Quando tiver filhos serei feliz! Quando mudar de emprego serei feliz!
Focamo-nos no que será o amanhã e deixamos o presente passar… Perdemos a oportunidade de hoje sermos felizes!
Perdemos a oportunidade de procurar dentro de nós a Felicidade enquanto a procuramos constantemente no exterior!
Olhe para dentro de si e encontre-se!
Todos nós temos a capacidade de transformar o mau em bom, os obstáculos em oportunidades, as discussões em momentos de aprendizagem, as regras impostas em regras úteis, o inevitável como fonte de crescimento.
Aceite-se e viva com paixão de ser como realmente é!
Se não está a fazer o que gosta, se acordar todos os dias de manhã é cada vez mais difícil e é um grande problema para si, pense no que está a fazer. Precisa amar o que faz e o que tem!
O segredo para a Felicidade?
Procure a resposta dentro de si!


Débora Água-Doce
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14/05/13

"Renascer..." - Conto Terapêutico




A possibilidade de voltar a sonhar!

“Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes, mas não me esqueço de que a minha vida é a maior empresa do mundo. E que posso evitar que ela vá á falência.
Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver, apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.
Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e se tornar um autor da própria história.
É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no recôndito da sua alma. É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.
Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos. É saber falar de si mesmo. É ter coragem para ouvir um “não”. É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.
Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo…”


Hoje decidi trazer-vos uma história que acompanhei. Uma história fantástica que partilho na esperança de dar esperança a outras histórias que ainda não conheço.

Um caso de desesperança, condenado pelo limite temporal desde o primeiro contacto. Um caso onde a necessidade de mudança, emerge a um ritmo estonteante. Onde é claro contudo, a esperança de se sentir melhor, de se sentir compreendida… Perdida de si própria, age em zanga constantemente, com uma raiva que transpõe em actos, sem capacidade de sentir, de pensar, de relacionar-se… Iniciámos um diálogo, dando a oportunidade de se exprimir, sentir e vivenciar a raiva e a zanga, ali, na relação. Assim começámos a nossa viagem ao Mundo dos Sonhos, a viagem ao “eu” esquecido. Sendo o EMDR (Eye Movement Desensitization and Reprocessing) uma terapia breve e focal de dessensibilização e reprocessamento de experiências emocionalmente traumáticas, encontrámos aqui com o desenrolar do processo, um espaço para relativizar a sua vivência infantil e abrir portas para o presente, emergindo os recursos interiores que permitiram transformar a dor e perda em aceitação e compreensão. Uma viagem preenchida de relação com um destino: o Sonho!


Os Sonhos… Um caminho para a Felicidade!

Quando eu era pequena, gostava de me sentar num sítio confortável e sossegado a pensar no que iria ser quando crescesse. Bastava-me a companhia do meu Urso de Peluche e uma imaginação repleta de Sonhos, para me sentir Feliz!
Lembro-me dos meus pais acharem que eu era “estranha” por andar sempre no “meu mundo”, ou como eles diziam “no mundo da lua”, mas também me lembro de desde pequena lhes responder “no dia em que deixar de sonhar, deixo de ser feliz”!
Hoje, adulta, já não sonho tanto como antes, mas continuo a fazê-lo sempre! É por continuar a sonhar e sentir que no dia que o deixar de fazer deixo de ser feliz, que trago a necessidade de “sonhar acordado” para as minhas intervenções psicoterapêuticas.
O caso que vos vou contar, configurou-se logo desde o início como uma luta desenfreante. Ainda me lembro da nossa primeira consulta, onde a Luana (nome fictício) com um olhar assustado e apreensivo me dizia que eu era a sua ultima esperança para sair do “buraco” em que se encontrava, salientando logo de seguida, as limitações que encontrava à terapia “Já tive ajuda profissional, mas a psicoterapia demorava tanto tempo a mostrar resultados… Era tão doloroso falar do passado, que ainda me concentrava mais em coisas negativas… Desisti de alguns terapeutas e tenho a noção que outros também desistiram de mim, porque me viam como um caso perdido”…”Vivo ansiosa e focada em resultados. Quando as coisas não correspondem às minhas expectativas, vou abaixo e começo a pensar mudar para outra coisa sem terminar o que comecei”…”tenho pouco mais de dois meses para a terapia”(sic).
Confesso que fiquei “insegura” perante a tamanha responsabilidade que acabara de “cair” em mim, contudo, rapidamente me lembrei de que o meu trabalho não deve ficar aprisionado pela história passada de quem me procura. A minha responsabilidade é a capacidade de dar resposta, não apenas através de palavras, mas sim, através de afectos, de emoções, e de Relação!
E assim, demos início a este encontro “fugaz”, onde a relação abriu caminho para os Sonhos.


A mente “mente” e a verdade não advém apenas, da razão.

Iniciamos então o nosso caminho até ao Sonho…
Dizia a Luana: “Porque é que eu falho em todas as relações? Será que é por ser muito exigente com os outros e ter medo de me apegar? Eu preciso de atenção constante… Senão fico com dúvidas de que as pessoas realmente gostem de mim e em que medida…” Continuou:
“Durante toda a minha vida, sofri de problemas de auto-estima e senti sempre uma necessidade muito grande de ser aceite pelos outros. Tentava sempre chamar a atenção tornando-me exemplo de comportamento e fonte de sabedoria”…”olho para o meu passado e só me consigo ver angustiada e injustiçada, porque só me recordo de memórias negativas”…”sou insegura, porque passo a vida a pensar que há algo de errado comigo, porque os outros não me vêm com bons olhos”…”não gosto de muitas coisas em mim e sei que os outros também não vão gostar porque estou condenada a viver no meu mundo”…”não confio em ninguém porque acho que as pessoas em algum momento me vão desapontar e magoar...”(sic).
Luana tentava interpretar tudo “fiz isto porque”…”sou assim porque” tentava explicar a vida, explicar o comportamento, as emoções, as reacções, acabando por se desresponsabilizar tendo em conta que a “culpa” seria sempre externa.
Com falta de esperança reflectida no olhar, acrescentou: “neste momento voltámos ao ciclo mais repetido: depressiva, falida e sem fantasias para o futuro”…” preciso de fazer as pazes com o meu passado, viver o presente relacionando-me de forma saudável comigo e com os outros e conseguir construir o meu futuro passo a passo sem grandes ansiedades”(sic).
Aqui é visível a sua tristeza e descrença. Contudo, o sofrimento não é um sintoma nem um diagnóstico, mas sim uma experiência (vivida) complexa para quem o vivencia. Neste sentido, há que ir ao encontro da singularidade da pessoa, envolvendo-a nas situações mais prementes do seu projecto de vida (Coimbra de Matos, 2007).
Quando abraçamos um caso, abraçamos uma vida e com ela o exercício da prática clinica, que no meu caso tem inspiração Psicanalítica, pois foi essa a minha formação de base, contudo, não permito que o passado do paciente lidere as sessões, é a situação presente que é urgente proclamar, não devemos ficar presos aos temas da parentalidade, como se estivéssemos a encontrar explicações para desresponsabilizar o paciente, impedindo-o de mudar.
Quando alguém procura um Psicólogo, fá-lo com a esperança de se sentir melhor, de se sentir compreendido… Normalmente são pessoas insatisfeitas, sendo que algumas até pensam que têm algum problema pois sentem-se diferentes dos que as rodeiam, outras têm medos, outras são muito seguras mas têm vontade de mudar algo e ainda há as que estão tão medicadas que já nem sabem quem são. Sendo comum a todas elas, a necessidade de voltar a Sonhar!
A terapia é um processo que deverá levar uma pessoa a reatar consigo própria e não a afastar-se de si própria, o objectivo da terapia não é somente a explicação, é mais do que isso (porque na escola primaria… porque os pais… porque a primeira namorada), se o objectivo da terapia se prender à explicação, pode levar a que as pessoas se sintam intimidadas e incapazes, o que gera a necessidade de procurar um novo psicólogo e muitas vezes, essa procura é feita com medo de que volte a correr mal e já com um sentimento de conformismo.
Luana chega até mim com uma enorme descrença nos Psicólogos, já conformada com a possibilidade de nada puder mudar.
- “É urgente que nos apaixonemos, Luana!”
- “Como Dra?”
- “É urgente que nos apaixonemos pela mesma coisa!”
- “Como assim, Dra?”
- “É urgente que nos apaixonemos pelo seu renascimento!”
- (Silêncio…)
Através da intimidade, através da relação, desenhamos a Terapia. Claro que nem sempre conseguimos ajudar todas as pessoas, mas fazemo-lo sempre com paixão e da melhor forma possível.
Neste caso que aqui partilho, usei e abusei da relação.
Num momento crucial da nossa relação, é partilhado um medo, ou melhor, uma fobia “tenho pavor de cobras”…”quando estou a andar na rua, se algo se mexe num jardim, desato a correr”…”é das coisas que mais perturbam o meu dia-a-dia”(sic).
Mas de onde viria este medo? Era um simples medo, ou teria algo subjacente a ele?
Começamos então a “viagem” ao mundo do Sonho!


Resultados em 8 sessões? Como?

Tínhamos agora diante de nós 8 sessões para pensar alguma coisa… Apenas 8 sessões, devido ao facto de Luana ter de partir em Trabalho… Mas como?
Tendo em conta toda problemática envolvente, o que poderíamos fazer?
Perante o pedido, decidi aplicar o método EMDR (Eye Movement Desensitization and Reprocessing) que quer dizer Dessensibilização e Reprocessamento através do Movimento Ocular. Trata-se de um método de dessensibilização e reprocessamento de experiências emocionalmente traumáticas por meio de estimulação bilateral do cérebro, a qual promove a comunicação entre os dois hemisférios cerebrais.
O processamento natural da informação é reposto e assim após uma sessão com EMDR, a percepção psicosensorial já não se manifesta como antes quando o acontecimento traumático é trazido à mente. As memórias ainda são recordadas mas o efeito perturbador desaparece. O EMDR recria o que acontece naturalmente durante o sonho ou o sono na fase REM (Rapid Eye Movement) e pode ser encarado como uma terapia de base fisiológica, que ajuda a pessoa a encarar e viver os traumas de uma forma nova e sem os efeitos perturbadores.
É um poderoso método psicoterapêutico. Um número substancial de estudos científicos já provou a eficácia do EMDR. Os resultados destes estudos indicam que se trata de uma técnica muito eficiente e que os resultados são duradouros a longo prazo.
Esta nova abordagem para o tratamento de traumas emocionais foi desenvolvida pela Drª Francine Shapiro, psicóloga americana, na década de 80, e desde então tem sido um dos métodos psicoterapêuticos mais amplamente pesquisados nos EUA, com recomendação especial da Associação Americana de Psiquiatria.
Fruto de larga pesquisa, as possibilidades de intervenção foram ampliadas passando a abranger as fobias, os transtornos do pânico, depressão e enfermidades psicossomáticas (Shapiro, 2007).
Optei por esta técnica tendo em conta que se configura como uma terapia breve e focal, parecendo-me uma terapia adequada ao caso que se apresenta.
Começamos por recolher a sua história de vida, o que se revelou bastante perturbador para a Luana “sabe Dra, a minha vida não foi fácil…”…”vivi na Guiné até aos 11 anos”…”vim para cá com a minha mãe, mas ela não tinha tempo para mim devido ao seu trabalho (era diplomata)”…”acabei por ficar com um tio meu…”…”este tio marcou a minha vida”…”lembro-me de ele me por um dia a dormir no chão, no sitio onde dormiam os animais”…”não me lembro de mais nada até aos meus 12 anos”…”é como se tivesse perdido a memória”(sic).
- “Sim, eu compreendo”. Disse-lhe isto tranquilamente, olhando-a nos olhos, tentado que o monólogo de “dissabores” se transformasse em partilha.
Foi assim que Luana, começou a relembrar aquilo que já tinha esquecido que sabia: a sua capacidade de transformação da sua relação com os factos. Situação que a tinha vindo a impedir de vivenciar trocas entre si e os outros.
Senti que Luana necessitava de aceder aos seus recursos interiores que permitiriam transformar a dor e perda em aceitação e compreensão.
Esta mulher “perdeu” o afecto aos 12 anos - viveu desde essa altura e até aos seus 28 anos num convento, longe dos pais.
Hoje, com 31 anos, refere “acho que desgostei tanto do meu passado que acabei por apagar algumas partes”(sic).

Iniciamos a intervenção EMDR, onde partimos com a fobia das cobras onde a Luana associa sobre si a cognição negativa “eu não posso confiar em ninguém ”.
Foi um processamento doloroso, as primeiras sessões foram pautadas por muitas lágrimas, era incrível o medo associado às cobras!
Com o desenrolar do processo, foram surgindo associadas outras imagens em que ficava patente o não poder confiar em ninguém.
Foi observando as situações e pensando sobre elas de forma diferente “aprendi que não faz sentido usar o tudo ou nada”…”em toda a minha vida, cruzei-me com pessoas que foram muito boas e queridas comigo, logo existem pessoas confiáveis, por isso posso escolher em quem confiar”…”aprendi a olhar para os outros sem necessidade de estar constantemente a descrevê-los ou julga-los”…”tal como aceitei que eu própria sou um conjunto de coisas positivas e outras desafiantes”…”aprendi que no fundo cada um de nós apreende a realidade com base nas suas vivências pessoais, que por serem pessoais são diferentes”
A evolução da Luana foi estonteantemente rápida. Teve um “clique” interior e usou-o!
No final da nossa viagem, quando o Sonho espreitou, olhou para mim e disse-me “após estes 2 meses de terapia, se tivesse que resumir a experiencia diria: revelador e libertador!”…”Revelador, porque acedi a muitas coisas que guardava no meu inconsciente”…”Libertador, porque deixei cair a maior parte das concepções que tinha sobre mim e sobre o mundo”…”vivia presa em vivências isoladas, tristes e até incapacitantes”…”aprendi que posso viver o que sou, o que fui é inalterável e o que serei não depende apenas da minha acção, mas também de conjunturas sobre as quais muitas vezes não possuo informação suficiente no aqui e agora”(sic).
Senti o meu sorriso acompanhar o seu, senti que, o pouco que tínhamos feito, foi muito! Senti que ambas conseguimos voltar a Sonhar!



Assim terminou o nosso encontro terapêutico e a história que queria partilhar consigo. A Luana começou este percurso, zangada e assustada. Perdida de si própria, agia em zanga constantemente, com uma raiva que transpunha em actos (contou-me várias atitudes que teve para com a sua irmã e amigos), sem capacidade de sentir, de pensar, de relacionar-se…
Foi então que a convidei ao diálogo, dando-lhe oportunidade de exprimir, sentir e vivenciar a raiva e a zanga, ali, na relação comigo.
Com a abordagem do EMDR, a Luana encontrou espaço para relativizar a sua vivência infantil e abrir portas para o presente.
Chegámos ao fim, felizes! Não por termos concluído algo, mas por termos iniciado algo que poderá ajudar a Luana a Sonhar! Por termos conseguido alcançar a capacidade de pensar sobre si com carinho.


Débora Água-Doce
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