17/08/18

A endometriose e eu...

Em Junho, escrevia-vos sobre os 5 anos deste Blog e sobre como a Psicossomática também a mim tinha chegado e obrigado a parar [podem ler ou reler aqui: http://www.apsicologaquetambemeblogger.pt/2018/06/palavras-que-escasseiam.html#more ]. Prometi que vos escreveria sobre a doença que me obrigou a parar, que me obrigou a mudar a forma de viver e olhar para mim.
Aqui estou...



A minha doença chama-se Endometriose, [A endometriose é uma doença tão dolorosa como desconhecida. Afeta cerca de 176 milhões de mulheres em todo o mundo e é uma das principais causas de infertilidade. Consiste no aparecimento e crescimento do tecido endometrial fora do útero. Caracteriza-se por provocar fortes dores pélvicas durante a menstruação ou dor pélvica crónica, que pode chegar a ser incapacitante. Ainda hoje não se sabe a origem da mesma, não houve nenhum avanço no tratamento sintomático da endometriose nos últimos anos e continua sem existir cura.] mas não a mais simples, se é para ter que seja Endometriose Profunda Grave [nas formas graves da doença, as massas de endometriose podem atingir outros órgãos pélvicos, nomeadamente o reto, vagina, cólon sigmoide, ureteres, bexiga e nervos superficiais e profundos. Algumas formas de endometriose profunda podem, ainda, envolver outros órgãos, por exemplo o diafragma e pulmão]. Foi este o meu diagnostico depois de vários anos de sintomas... Lamentavelmente, esta doença é de difícil diagnostico e poucos médicos estão despertos para a mesma. Muitas vezes é desvalorizada e confundida com outras.
Há uns anos comecei a ter infecções urinárias recorrentes [assim pensava eu] e coincidiam quase sempre com a semana da menstruação [que gradualmente deixou de surgir] ou com momentos de maior stress na minha vida. Tomei antibióticos sem conta e regularmente lá voltavam os malditos sintomas...




Há 4 anos, decidi deixar de tomar a pílula, considerava que não era benéfica para a saúde, tinha mudado alguns hábitos alimentares na minha vida [deixei de comer carne] e essa decisão parecia-me a mais acertada. Passados 5/6 meses as dores menstruais passaram a ser incapacitantes, ao ponto de não conseguir levantar-me e de me contorcer com dores [costumo brincar com o tema do parto, dizendo que se um dia for mãe, essas dores não se devem comparar a estas contrações no útero que até me faziam vomitar]. Posto isto, fui à ginecologista, levantei a hipótese de Endometriose, pois como curiosa que sou andei a estudar o tema e parecia encaixar na minha sintomatologia, mas esta, desvalorizou e após os resultados de exames propostos refere que tenho apenas uns quistos nos ovários e que tenho duas opções: ou tomo pílula ou engravido. Escolhi a primeira, um pouco contrariada, mas o certo é que deixei de ter dores. As infecções urinarias lá voltavam, sempre de forma regular... Há 2 anos, procurei outra ginecologista e após novos exames, os tais quistos tinham desaparecido e não existiam motivos para preocupações, apenas devia manter a toma da pílula.
2017 foi para mim o ano mais difícil a vários níveis e as malditas infecções urinarias lá estavam de forma persistente, tanto que desta vez [sim, eu sei deveria ter ido antes] decidi ir ao médico.
O Urologista, sugeriu a realização de vários exames complementares e numa ressonância magnética, lá se diagnosticou a Endometriose. Com o diagnostico uma série de duvidas e emoções...
Eu sabia que tinha esta doença e isso é o mais frustrante, perceber que sempre estiveram lá os sintomas e ninguém me diagnosticou corretamente.
Fui operada em Maio deste ano. A cirurgia era urgente, tinha o rim esquerdo comprometido pela doença [além de vários nódulos e fibroses espalhadas pelo organismo, tinha um nódulo a repuxar o ureter do rim esquerdo, o que contribuía para os sintomas de infecção urinaria inexistente]. Correu tudo bem, tenho uma excelente equipa médica a cuidar de mim e a recuperação foi muito tranquila.
Contudo, esta doença é crónica e está intimamente relacionada com as nossas emoções, pelo que, se não cuidar muito bem de mim, lá surge a sintomatologia... E é aqui que reside a principal causa da doença [na minha opinião, pois é desconhecido].

A endometriose é a doença da “competição”.

A endometriose desenvolve-se quando as necessidades emocionais de uma mulher entram em competição com a sua forma de funcionar no mundo exterior. Quando uma mulher sente que as suas necessidades emocionais mais íntimas entram em conflito direto com o que o mundo lhe exige, a endometriose é um dos caminhos que o corpo tenta utilizar para chamar a atenção para o problema. A chamada psicossomática em ação.
Normalmente, as doentes de endometriose, preocupam-se primeiro com tudo à sua volta e só depois consigo próprias. Mulheres que em vez de fazerem algo que lhes apetece estão preocupadas em resolver os problemas dos outros, que preferem fazer voluntariado ou procurar uma solução para a vida de alguém em vez de descansarem, até quando se sentem doentes. Colocam sempre as suas necessidades em ultimo lugar... esquecem a necessidade de autocuidado e rejeitam a possibilidade de sentir o que se está a passar emocionalmente dentro delas, dedicam-se exclusivamente ao mundo exterior. Quase como se existisse uma rejeição do seu Ser feminino.

Também se tem verificado uma correlação entre a baixa autoestima e esta doença, o que não é de admirar tendo em conta que a base do bem-estar é o amor próprio. Muitas mulheres com endometriose têm um autoconceito depreciativo "não sou suficientemente boa", onde constantemente se sentem inadequadas e inferiores a todos os que as rodeiam. Como se tudo o que são ou fazem fosse sempre insuficiente para se valorizarem e sentirem-se merecedoras de amor e afecto.

Então mas a Dra. cuida tão bem dos outros e não cuida de si? Perguntam vocês... Cuidar cuido, mas percebi que não o suficiente.
Tudo começou há uns aninhos atrás... Identifico o início deste adoecer com o início da vida adulta.
Aos 19 anos assumi a responsabilidade de estudar e trabalhar, a responsabilidade de pagar as contas e ter boas notas, sem permitir a possibilidade de que algo corresse mal. Foi aqui o inicio da competição entre o meu mundo interno e o meu mundo externo [hoje é fácil olhar para trás e reconhecer isso].
Quando iniciei a carreira de Psicóloga, a minha vontade de aprender, de provar ao mundo da psicologia que tinha valor, de dar, de ajudar e de curar era a minha prioridade e isso promoveu que abdicasse de horas semanais ou diárias para mim. Essa decisão impediu-me de nutrir este Ser que tem como missão ser o vosso farol e adoeci...
Partilho convosco um pouco sobre mim [não posso partilhar tudo :)] de forma a chegar ao maior numero de mulheres que sofrem com esta doença.
Gostava que soubessem que não estão sozinhas e que depende da nossa capacidade de autocuidado a redução dos sintomas.

Neste momento agarrei com amor esta doença e desenvolvi grupos terapêuticos para mulheres com endometriose e psicoterapia individual especializada para este tema.
Qualquer informação escreva-me para info@apsicologaquetambemeblogger.pt


Com Amor,

Débora
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