16/07/18

O mito do Amor eterno


Acredito no Amor, acredito em finais felizes e encontros de luz. Acredito que um encontro entre duas pessoas pode durar toda uma vida.
Esta tem sido a minha premissa desde que vos escrevo e, sim, continuo a acreditar nisto. Continuo a acreditar nesta possibilidade de Amor. Contudo, hoje quero falar-vos de quando isto não acontece.

O Amor acaba!
Não sempre, mas pode acabar.

A vida é feita de encontros, mas também de desencontros. Se pensares bem, certamente constatarás que não manténs na tua vida todas as pessoas que foram sendo significativas ao longo do teu desenvolvimento. Ainda tens como amigos os teus amiguinhos de escola primária? Poderás ter alguns, outros ter-se-ão afastado naturalmente.
Recordo-me de fazer pactos de amizade com miudinhas e de jurarmos sermos amigas para sempre. A possibilidade de não nos termos era assustadora e hoje, olhamos para trás e percebemos que não somos mais que uma recordação de infância. Não há mal nenhum nisto, faz parte do desencontro do desenvolvimento pessoal de cada um de nós.
Vamos crescendo, apreciando coisas diferentes, fazendo escolhas que nos levam a outros caminhos. A outras pessoas!



Nas relações amorosas, acontece o mesmo.
Quando nos enamoramos de alguém e nos entregamos a esse relacionamento, desejamos com todas as nossas forças, que seja para sempre. Queremos que aquele sentimento e emoção permaneça para sempre. E é tão bom que assim seja! Só com esta entrega e empenho será possível construir a identidade do nós [identidade do casal e objectivos em comum].
Quando uma paixão evolui para Amor, pode acontecer o encontro das personalidades permitindo a continuação do caminho em conjunto, ou pode acontecer o desencontro das personalidades e os caminhos esperam-se diferentes.
Tal como na infância em que cresces e os teus amiguinhos vão estando ou não na tua vida, na vida adulta, também atravessas um processo de construção e mudança da tua identidade [a nossa identidade constrói-se desde o inicio da nossa vida até ao final] e inevitavelmente existem pessoas que deixam de fazer o caminho contigo, dando lugar a outras.



O mito do Amor eterno, é responsabilidade em certa parte, dos Contos de Fadas que nos faziam acreditar que quando o Amor era verdadeiro seria insubstituível e para sempre, o cliché do “e viveram felizes para sempre”. Faziam-nos crer que só existiria uma pessoa no mundo para cada uma de nós e que quando esse encontro se desse, mesmo que ocorresse um desencontro, seria impossível voltar a ser feliz. Ficaríamos reféns da dor de não termos mais esse amor.
Seria tão triste se assim fosse na realidade... Com tantas pessoas no mundo,  deveríamos ficar sozinhos [romanticamente] porque um Amor chegou ao fim?
O Amor acaba! Não sempre, mas pode acabar!
É doloroso. Sim! É destrutivo, também... Todos os nossos sonhos com aquela pessoa deixaram de fazer sentido e ser um objectivo. É chegado o momento de olhar para dentro e caminhar noutra direção.
Se é chegado esse momento, o momento do desencontro, é porque em algum momento do nosso desenvolvimento individual nos afastámos daquilo que éramos quando nos unimos. As pessoas mudam, as emoções mudam e os sentimentos também.

Muitas vezes, recebo pessoas no consultório que deixaram de amar ou que deixaram de ser amadas e a angustia em ambas as situações é imensa.
Não há nada que possamos fazer para recuperar o Amor que já sentimos por aquela pessoa nem existe formula para que o outro me volte a amar! É uma “treta”, eu sei. Era muito mais confortável reparar os sentimentos e manter a vidinha construída, não ter que abalar estruturas e mundos. Seria muito mais fácil, mas não é possível escolher amar ou ser amado. Acontece! Não se escolhe...

Da mesma forma que não se escolhe, também não se pode medir a quantidade de Amor que já sentimos por esta ou aquela pessoa.

A Joana, vivia com o Manel, tinham uma relação desde os seus 20 anos, já tinham passado 10 anos quando a Joana um dia percebeu que não se identificava com aquela vida e relação e decidiu escolher outra direção.
Passado algum tempo, voltou a apaixonar-se e a construir uma vida em conjunto. Voltou a amar. Dizia-me que este Amor é que era a valer, que não se comparava.

Mas será que as relações se medem assim? É possível medir o Amor?
Todas as relações são especiais no momento em que existem [que seja eterno enquanto dure este amor, já dizia Vinicius de Moares], todas contribuem para a nossa construção e evolução. A relação da Joana com o Manel, chegou ao fim, eles mudaram, mas existiu amor, amor que criou oportunidade para a mudança e evolução de personalidade e construção de muita coisa. Não se pode negar um amor que já existiu só porque já não se ama, porque se ama outra pessoa. Isso fez e faz parte de nós. Não deu certo, por isso tens a possibilidade de viver uma nova história, mas não necessariamente melhor, apenas diferente. Talvez mais adulta, mais consciente. Mais definida... Diferente!

O Amor acaba!
Mas pode durar para sempre. Não sempre da mesma forma, ou com a mesma intensidade, contudo, com a responsabilidade comum de criar um espaço de encontro onde o Amor, a confiança e a intimidade são os pilares do “viveram felizes para sempre”.


Com Amor,

Débora
SHARE:

Sem comentários

Enviar um comentário

© A Psicóloga que também é Blogger . All rights reserved.