14/05/13

"Renascer..." - Conto Terapêutico




A possibilidade de voltar a sonhar!

“Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes, mas não me esqueço de que a minha vida é a maior empresa do mundo. E que posso evitar que ela vá á falência.
Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver, apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.
Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e se tornar um autor da própria história.
É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no recôndito da sua alma. É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.
Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos. É saber falar de si mesmo. É ter coragem para ouvir um “não”. É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.
Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo…”


Hoje decidi trazer-vos uma história que acompanhei. Uma história fantástica que partilho na esperança de dar esperança a outras histórias que ainda não conheço.

Um caso de desesperança, condenado pelo limite temporal desde o primeiro contacto. Um caso onde a necessidade de mudança, emerge a um ritmo estonteante. Onde é claro contudo, a esperança de se sentir melhor, de se sentir compreendida… Perdida de si própria, age em zanga constantemente, com uma raiva que transpõe em actos, sem capacidade de sentir, de pensar, de relacionar-se… Iniciámos um diálogo, dando a oportunidade de se exprimir, sentir e vivenciar a raiva e a zanga, ali, na relação. Assim começámos a nossa viagem ao Mundo dos Sonhos, a viagem ao “eu” esquecido. Sendo o EMDR (Eye Movement Desensitization and Reprocessing) uma terapia breve e focal de dessensibilização e reprocessamento de experiências emocionalmente traumáticas, encontrámos aqui com o desenrolar do processo, um espaço para relativizar a sua vivência infantil e abrir portas para o presente, emergindo os recursos interiores que permitiram transformar a dor e perda em aceitação e compreensão. Uma viagem preenchida de relação com um destino: o Sonho!


Os Sonhos… Um caminho para a Felicidade!

Quando eu era pequena, gostava de me sentar num sítio confortável e sossegado a pensar no que iria ser quando crescesse. Bastava-me a companhia do meu Urso de Peluche e uma imaginação repleta de Sonhos, para me sentir Feliz!
Lembro-me dos meus pais acharem que eu era “estranha” por andar sempre no “meu mundo”, ou como eles diziam “no mundo da lua”, mas também me lembro de desde pequena lhes responder “no dia em que deixar de sonhar, deixo de ser feliz”!
Hoje, adulta, já não sonho tanto como antes, mas continuo a fazê-lo sempre! É por continuar a sonhar e sentir que no dia que o deixar de fazer deixo de ser feliz, que trago a necessidade de “sonhar acordado” para as minhas intervenções psicoterapêuticas.
O caso que vos vou contar, configurou-se logo desde o início como uma luta desenfreante. Ainda me lembro da nossa primeira consulta, onde a Luana (nome fictício) com um olhar assustado e apreensivo me dizia que eu era a sua ultima esperança para sair do “buraco” em que se encontrava, salientando logo de seguida, as limitações que encontrava à terapia “Já tive ajuda profissional, mas a psicoterapia demorava tanto tempo a mostrar resultados… Era tão doloroso falar do passado, que ainda me concentrava mais em coisas negativas… Desisti de alguns terapeutas e tenho a noção que outros também desistiram de mim, porque me viam como um caso perdido”…”Vivo ansiosa e focada em resultados. Quando as coisas não correspondem às minhas expectativas, vou abaixo e começo a pensar mudar para outra coisa sem terminar o que comecei”…”tenho pouco mais de dois meses para a terapia”(sic).
Confesso que fiquei “insegura” perante a tamanha responsabilidade que acabara de “cair” em mim, contudo, rapidamente me lembrei de que o meu trabalho não deve ficar aprisionado pela história passada de quem me procura. A minha responsabilidade é a capacidade de dar resposta, não apenas através de palavras, mas sim, através de afectos, de emoções, e de Relação!
E assim, demos início a este encontro “fugaz”, onde a relação abriu caminho para os Sonhos.


A mente “mente” e a verdade não advém apenas, da razão.

Iniciamos então o nosso caminho até ao Sonho…
Dizia a Luana: “Porque é que eu falho em todas as relações? Será que é por ser muito exigente com os outros e ter medo de me apegar? Eu preciso de atenção constante… Senão fico com dúvidas de que as pessoas realmente gostem de mim e em que medida…” Continuou:
“Durante toda a minha vida, sofri de problemas de auto-estima e senti sempre uma necessidade muito grande de ser aceite pelos outros. Tentava sempre chamar a atenção tornando-me exemplo de comportamento e fonte de sabedoria”…”olho para o meu passado e só me consigo ver angustiada e injustiçada, porque só me recordo de memórias negativas”…”sou insegura, porque passo a vida a pensar que há algo de errado comigo, porque os outros não me vêm com bons olhos”…”não gosto de muitas coisas em mim e sei que os outros também não vão gostar porque estou condenada a viver no meu mundo”…”não confio em ninguém porque acho que as pessoas em algum momento me vão desapontar e magoar...”(sic).
Luana tentava interpretar tudo “fiz isto porque”…”sou assim porque” tentava explicar a vida, explicar o comportamento, as emoções, as reacções, acabando por se desresponsabilizar tendo em conta que a “culpa” seria sempre externa.
Com falta de esperança reflectida no olhar, acrescentou: “neste momento voltámos ao ciclo mais repetido: depressiva, falida e sem fantasias para o futuro”…” preciso de fazer as pazes com o meu passado, viver o presente relacionando-me de forma saudável comigo e com os outros e conseguir construir o meu futuro passo a passo sem grandes ansiedades”(sic).
Aqui é visível a sua tristeza e descrença. Contudo, o sofrimento não é um sintoma nem um diagnóstico, mas sim uma experiência (vivida) complexa para quem o vivencia. Neste sentido, há que ir ao encontro da singularidade da pessoa, envolvendo-a nas situações mais prementes do seu projecto de vida (Coimbra de Matos, 2007).
Quando abraçamos um caso, abraçamos uma vida e com ela o exercício da prática clinica, que no meu caso tem inspiração Psicanalítica, pois foi essa a minha formação de base, contudo, não permito que o passado do paciente lidere as sessões, é a situação presente que é urgente proclamar, não devemos ficar presos aos temas da parentalidade, como se estivéssemos a encontrar explicações para desresponsabilizar o paciente, impedindo-o de mudar.
Quando alguém procura um Psicólogo, fá-lo com a esperança de se sentir melhor, de se sentir compreendido… Normalmente são pessoas insatisfeitas, sendo que algumas até pensam que têm algum problema pois sentem-se diferentes dos que as rodeiam, outras têm medos, outras são muito seguras mas têm vontade de mudar algo e ainda há as que estão tão medicadas que já nem sabem quem são. Sendo comum a todas elas, a necessidade de voltar a Sonhar!
A terapia é um processo que deverá levar uma pessoa a reatar consigo própria e não a afastar-se de si própria, o objectivo da terapia não é somente a explicação, é mais do que isso (porque na escola primaria… porque os pais… porque a primeira namorada), se o objectivo da terapia se prender à explicação, pode levar a que as pessoas se sintam intimidadas e incapazes, o que gera a necessidade de procurar um novo psicólogo e muitas vezes, essa procura é feita com medo de que volte a correr mal e já com um sentimento de conformismo.
Luana chega até mim com uma enorme descrença nos Psicólogos, já conformada com a possibilidade de nada puder mudar.
- “É urgente que nos apaixonemos, Luana!”
- “Como Dra?”
- “É urgente que nos apaixonemos pela mesma coisa!”
- “Como assim, Dra?”
- “É urgente que nos apaixonemos pelo seu renascimento!”
- (Silêncio…)
Através da intimidade, através da relação, desenhamos a Terapia. Claro que nem sempre conseguimos ajudar todas as pessoas, mas fazemo-lo sempre com paixão e da melhor forma possível.
Neste caso que aqui partilho, usei e abusei da relação.
Num momento crucial da nossa relação, é partilhado um medo, ou melhor, uma fobia “tenho pavor de cobras”…”quando estou a andar na rua, se algo se mexe num jardim, desato a correr”…”é das coisas que mais perturbam o meu dia-a-dia”(sic).
Mas de onde viria este medo? Era um simples medo, ou teria algo subjacente a ele?
Começamos então a “viagem” ao mundo do Sonho!


Resultados em 8 sessões? Como?

Tínhamos agora diante de nós 8 sessões para pensar alguma coisa… Apenas 8 sessões, devido ao facto de Luana ter de partir em Trabalho… Mas como?
Tendo em conta toda problemática envolvente, o que poderíamos fazer?
Perante o pedido, decidi aplicar o método EMDR (Eye Movement Desensitization and Reprocessing) que quer dizer Dessensibilização e Reprocessamento através do Movimento Ocular. Trata-se de um método de dessensibilização e reprocessamento de experiências emocionalmente traumáticas por meio de estimulação bilateral do cérebro, a qual promove a comunicação entre os dois hemisférios cerebrais.
O processamento natural da informação é reposto e assim após uma sessão com EMDR, a percepção psicosensorial já não se manifesta como antes quando o acontecimento traumático é trazido à mente. As memórias ainda são recordadas mas o efeito perturbador desaparece. O EMDR recria o que acontece naturalmente durante o sonho ou o sono na fase REM (Rapid Eye Movement) e pode ser encarado como uma terapia de base fisiológica, que ajuda a pessoa a encarar e viver os traumas de uma forma nova e sem os efeitos perturbadores.
É um poderoso método psicoterapêutico. Um número substancial de estudos científicos já provou a eficácia do EMDR. Os resultados destes estudos indicam que se trata de uma técnica muito eficiente e que os resultados são duradouros a longo prazo.
Esta nova abordagem para o tratamento de traumas emocionais foi desenvolvida pela Drª Francine Shapiro, psicóloga americana, na década de 80, e desde então tem sido um dos métodos psicoterapêuticos mais amplamente pesquisados nos EUA, com recomendação especial da Associação Americana de Psiquiatria.
Fruto de larga pesquisa, as possibilidades de intervenção foram ampliadas passando a abranger as fobias, os transtornos do pânico, depressão e enfermidades psicossomáticas (Shapiro, 2007).
Optei por esta técnica tendo em conta que se configura como uma terapia breve e focal, parecendo-me uma terapia adequada ao caso que se apresenta.
Começamos por recolher a sua história de vida, o que se revelou bastante perturbador para a Luana “sabe Dra, a minha vida não foi fácil…”…”vivi na Guiné até aos 11 anos”…”vim para cá com a minha mãe, mas ela não tinha tempo para mim devido ao seu trabalho (era diplomata)”…”acabei por ficar com um tio meu…”…”este tio marcou a minha vida”…”lembro-me de ele me por um dia a dormir no chão, no sitio onde dormiam os animais”…”não me lembro de mais nada até aos meus 12 anos”…”é como se tivesse perdido a memória”(sic).
- “Sim, eu compreendo”. Disse-lhe isto tranquilamente, olhando-a nos olhos, tentado que o monólogo de “dissabores” se transformasse em partilha.
Foi assim que Luana, começou a relembrar aquilo que já tinha esquecido que sabia: a sua capacidade de transformação da sua relação com os factos. Situação que a tinha vindo a impedir de vivenciar trocas entre si e os outros.
Senti que Luana necessitava de aceder aos seus recursos interiores que permitiriam transformar a dor e perda em aceitação e compreensão.
Esta mulher “perdeu” o afecto aos 12 anos - viveu desde essa altura e até aos seus 28 anos num convento, longe dos pais.
Hoje, com 31 anos, refere “acho que desgostei tanto do meu passado que acabei por apagar algumas partes”(sic).

Iniciamos a intervenção EMDR, onde partimos com a fobia das cobras onde a Luana associa sobre si a cognição negativa “eu não posso confiar em ninguém ”.
Foi um processamento doloroso, as primeiras sessões foram pautadas por muitas lágrimas, era incrível o medo associado às cobras!
Com o desenrolar do processo, foram surgindo associadas outras imagens em que ficava patente o não poder confiar em ninguém.
Foi observando as situações e pensando sobre elas de forma diferente “aprendi que não faz sentido usar o tudo ou nada”…”em toda a minha vida, cruzei-me com pessoas que foram muito boas e queridas comigo, logo existem pessoas confiáveis, por isso posso escolher em quem confiar”…”aprendi a olhar para os outros sem necessidade de estar constantemente a descrevê-los ou julga-los”…”tal como aceitei que eu própria sou um conjunto de coisas positivas e outras desafiantes”…”aprendi que no fundo cada um de nós apreende a realidade com base nas suas vivências pessoais, que por serem pessoais são diferentes”
A evolução da Luana foi estonteantemente rápida. Teve um “clique” interior e usou-o!
No final da nossa viagem, quando o Sonho espreitou, olhou para mim e disse-me “após estes 2 meses de terapia, se tivesse que resumir a experiencia diria: revelador e libertador!”…”Revelador, porque acedi a muitas coisas que guardava no meu inconsciente”…”Libertador, porque deixei cair a maior parte das concepções que tinha sobre mim e sobre o mundo”…”vivia presa em vivências isoladas, tristes e até incapacitantes”…”aprendi que posso viver o que sou, o que fui é inalterável e o que serei não depende apenas da minha acção, mas também de conjunturas sobre as quais muitas vezes não possuo informação suficiente no aqui e agora”(sic).
Senti o meu sorriso acompanhar o seu, senti que, o pouco que tínhamos feito, foi muito! Senti que ambas conseguimos voltar a Sonhar!



Assim terminou o nosso encontro terapêutico e a história que queria partilhar consigo. A Luana começou este percurso, zangada e assustada. Perdida de si própria, agia em zanga constantemente, com uma raiva que transpunha em actos (contou-me várias atitudes que teve para com a sua irmã e amigos), sem capacidade de sentir, de pensar, de relacionar-se…
Foi então que a convidei ao diálogo, dando-lhe oportunidade de exprimir, sentir e vivenciar a raiva e a zanga, ali, na relação comigo.
Com a abordagem do EMDR, a Luana encontrou espaço para relativizar a sua vivência infantil e abrir portas para o presente.
Chegámos ao fim, felizes! Não por termos concluído algo, mas por termos iniciado algo que poderá ajudar a Luana a Sonhar! Por termos conseguido alcançar a capacidade de pensar sobre si com carinho.


Débora Água-Doce
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2 comentários

  1. Há psicoterapias com um final feliz!

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    Respostas
    1. É sempre possível começar de novo! Com outro terapeuta, em outra fase.
      Nem sempre é o momento! Esta paciente já tinha tido outras experiências que não correram bem, não era o momento...

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