08/05/13

Psicoterapia & Loja da Verdade



“O Homem passeava pelas ruazinhas da cidade provinciana. Como dispunha de tempo, parava alguns instantes à frente de cada montra, de cada loja, de cada praça. Ao virar de uma esquina, encontrou-se, de repente, perante um modesto estabelecimento, cuja montra estava vazia. Intrigado, aproximou-se do vidro e encostou a cara para poder  espreitar lá para dentro… No interior, via-se apenas um cartaz escrito à mão, a anunciar: Loja da Verdade.
O homem ficou surpreendido. Pensou que era um nome a brincar, mas não conseguiu imaginar o que lá venderiam.
Entrou.
Aproximou-se da rapariga que estava ao balcão e perguntou:
- Desculpe, esta é a loja da verdade?
- É sim, senhor. Que tipo de verdade procura? Verdade parcial, verdade relativa, verdade estatística, verdade completa?
Portanto, vendia-se ali a verdade. Nunca imaginara que fosse possível. Entrar numa loja e sair com a verdade era maravilhoso.
- Verdade completa – respondeu o homem, sem hesitar.
«Estou tão cansado de mentiras e falsificações», pensou. «Não quero mais generalizações nem justificações, enganos ou fraudes.»
- Verdade plena! – ratificou.
- Está bem, meu senhor. Siga-me.
A rapariga acompanhou o cliente a outro sector e, apontando para um vendedor de rosto sério, disse-lhe:
- Aquele senhor vai atende-lo.
O vendedor aproximou-se e esperou que o homem falasse.
- Venho comprar uma verdade completa.
- Ah. Perdoe-me, mas o senhor sabe o preço?
- Não, qual é? – respondeu casualmente. Na realidade, sabia que estava disposto a pagar fosse o que fosse pela verdade absoluta.
- Se o senhor a levar – disse o vendedor – o preço é nunca mais ter paz de espirito.
O homem foi percorrido de alto a baixo por um arrepio. Nunca imaginaria que o preço fosse tão elevado.
- Obri… Obrigado… desculpe… - balbuciou.
Deu meia volta e saiu da loja, de olhos postos no chão.
Sentiu-se um pouco triste ao perceber que ainda não estava preparado para a verdade absoluta, que ainda precisava de algumas mentiras para ter descanso, alguns mitos e idealizações no quais se pudesse refugiar, algumas justificações para não ter de se enfrentar a si mesmo…
«Talvez um dia mais tarde», pensou.”

Muitas vezes as pessoas perguntam-me o que leva alguém a fazer psicoterapia, o que as distingue dos demais…
Às vezes pensam que todos beneficiariam de psicoterapia…
Mas será que é mesmo verdade que qualquer pessoa pode beneficiar de um processo terapêutico?
Claro que sim! Qualquer pessoa que queira beneficiar-se poderá tirar proveito da terapia.
Contudo, o que é benéfico para uma pessoa, não é forçosamente para outra pessoa. Pode acontecer, e é justo que assim seja, que alguém considere o preço de determinado beneficio demasiado alto. É legitimo que cada pessoa decida quanto quer pagar em troca do que recebe, e é lógico que cada um escolha o momento em que deseja receber o que o mundo lhe oferece, seja a verdade ou qualquer outro beneficio.
Por isso, quanto à pergunta, se determinada pessoa deve ou não fazer terapia, a resposta é:
- Só ela poderá sentir ou não essa necessidade! Não interfira.

Débora Água-Doce
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