30/05/13

Eu ou o que esperam de mim?


“Ao longo dos anos que namorei e estive casada com o Luis (nome fictício), tentei perceber qual o tipo de mulher que ele gostaria. Se loura, se morena, se burra, se inteligente… Sempre achei que eu não era quem ele amava…
A maior parte do tempo pensei que não estava à altura dele, desvalorizava-me, era insegura, tinha medo, principalmente medo de que me abandonasse.
Assim desta forma, dei o melhor de mim, fui a melhor esposa que consegui, sempre prendada, boa dona de casa, tentei estar sempre cuidada e bonita, embora pensasse que nem isso me valia de nada, como não valeu.
Esta semana recordei os meus tempos de adolescente, de como me sentia o patinho feio… Usava óculos, não vestia roupas de marca como os betinhos que se juntavam no recreio no sítio do costume. Nesse grupo também estava o Luis, mas longe de eu pensar que um dia seria sua mulher. Nessa altura, observava as raparigas desse grupo e pensava em como gostava de ser assim, como gostava de pertencer ao grupo dos melhores, dos maiores, dos giros e dos bem vestidos.
Passados todos estes anos e após alguns reencontros, constatei que os betinhos e betinhas hoje são gordos e gordas, carecas, velhos e alguns deles com vidas completamente destroçadas.
O patinho feio, afinal é uma linda mulher, com uma vida pacata é certo, com desilusões é um fato, infeliz por um lado (desemprego e divórcio) mas feliz por ter uma linda família, uma casa e um filho saudável e maravilhoso…
Contudo, todos os dias habitam em mim questões para as quais ainda não encontrei respostas:
- Porque não fui feliz no casamento?
- O que tenho eu de errado? Ou serão eles?
- É assim tão difícil ser feliz?
- É assim tão difícil amar e ser amada?
Estou exausta…”

Este é o desabafo que a Luísa (nome fictício) faz para o papel e decide partilhar comigo…
Eu e a Luísa estamos nesta viagem há aproximadamente um ano. Recordo-me de ter chegado até mim completamente destroçada e com a auto-estima destruída. Nessa altura apenas a desilusão da separação era tema de consulta… Muitas vezes nem existia assunto, a dor era insuportável e apenas chorava…
Como se não bastasse, enfrentou outra perda, o desemprego. A empresa onde trabalhava não dispunha de verbas para a manter em colaboração.
- “Não consigo Débora!” Assim me revelava o seu desespero.
Posto isto, e após muita incidência nestes lutos, surgiu o caminho que levaria ao “eu pelos meus olhos” e não ao “eu pelos olhos dos outros”.

Devagarinho fomos tocando na auto-estima e criando a autonomia necessária para viver sem o marido. Sentia-se incapacitada para fazer imensas coisas, recordo-me da sua felicidade por exemplo, quando simplesmente conseguiu comprar um Smartphone sozinha e da sua surpresa por perceber que conseguia aprender a utilizá-lo sem ajuda!

O descobrir “quem sou eu”, “o que realmente gosto”, “o que me realiza” em vez de “como me vêem”, “o que devo fazer”, ”o que esperam de mim” levou-nos à consciência de que o patinho feio, afinal, de feio não tem nada, muito pelo contrário.

É certo que ainda existe um caminho a percorrer até ao nosso destino, existem questões que ainda não dão descanso à Luisa, contudo, é certo também que o ponto de partida há muito que ficou para trás.
Tal como a Luisa viveu quase 40 anos da sua vida a desejar ser como os outros, a tentar ser perfeita, a tentar ser o que achava que os outros esperavam de si, deixando a sua identidade esquecida, também muitas outras “Luisas” o fizeram e ainda fazem.
Muitas outras “Luisas” vivem na esperança do que será o amanhã, o amanhã em que se sentirão amadas, ao mesmo tempo que deixam o presente passar… Não o vivem. Perdendo a oportunidade de serem felizes hoje!
Perdendo a oportunidade de procurar dentro delas a felicidade, enquanto a procuram constantemente no exterior!
A todas as “Luisas” sugiro que não sejam tão duras consigo próprias! Sugiro que se permitam olhar para “dentro”, aceitando-se!
Só aceitando é possível amar.

Como complemento a esta crónica sugiro a leitura das cronicas Apaixone-se por si! Parte I e II



Débora Água-Doce   
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