30/05/13

Eu ou o que esperam de mim?


“Ao longo dos anos que namorei e estive casada com o Luis (nome fictício), tentei perceber qual o tipo de mulher que ele gostaria. Se loura, se morena, se burra, se inteligente… Sempre achei que eu não era quem ele amava…
A maior parte do tempo pensei que não estava à altura dele, desvalorizava-me, era insegura, tinha medo, principalmente medo de que me abandonasse.
Assim desta forma, dei o melhor de mim, fui a melhor esposa que consegui, sempre prendada, boa dona de casa, tentei estar sempre cuidada e bonita, embora pensasse que nem isso me valia de nada, como não valeu.
Esta semana recordei os meus tempos de adolescente, de como me sentia o patinho feio… Usava óculos, não vestia roupas de marca como os betinhos que se juntavam no recreio no sítio do costume. Nesse grupo também estava o Luis, mas longe de eu pensar que um dia seria sua mulher. Nessa altura, observava as raparigas desse grupo e pensava em como gostava de ser assim, como gostava de pertencer ao grupo dos melhores, dos maiores, dos giros e dos bem vestidos.
Passados todos estes anos e após alguns reencontros, constatei que os betinhos e betinhas hoje são gordos e gordas, carecas, velhos e alguns deles com vidas completamente destroçadas.
O patinho feio, afinal é uma linda mulher, com uma vida pacata é certo, com desilusões é um fato, infeliz por um lado (desemprego e divórcio) mas feliz por ter uma linda família, uma casa e um filho saudável e maravilhoso…
Contudo, todos os dias habitam em mim questões para as quais ainda não encontrei respostas:
- Porque não fui feliz no casamento?
- O que tenho eu de errado? Ou serão eles?
- É assim tão difícil ser feliz?
- É assim tão difícil amar e ser amada?
Estou exausta…”

Este é o desabafo que a Luísa (nome fictício) faz para o papel e decide partilhar comigo…
Eu e a Luísa estamos nesta viagem há aproximadamente um ano. Recordo-me de ter chegado até mim completamente destroçada e com a auto-estima destruída. Nessa altura apenas a desilusão da separação era tema de consulta… Muitas vezes nem existia assunto, a dor era insuportável e apenas chorava…
Como se não bastasse, enfrentou outra perda, o desemprego. A empresa onde trabalhava não dispunha de verbas para a manter em colaboração.
- “Não consigo Débora!” Assim me revelava o seu desespero.
Posto isto, e após muita incidência nestes lutos, surgiu o caminho que levaria ao “eu pelos meus olhos” e não ao “eu pelos olhos dos outros”.

Devagarinho fomos tocando na auto-estima e criando a autonomia necessária para viver sem o marido. Sentia-se incapacitada para fazer imensas coisas, recordo-me da sua felicidade por exemplo, quando simplesmente conseguiu comprar um Smartphone sozinha e da sua surpresa por perceber que conseguia aprender a utilizá-lo sem ajuda!

O descobrir “quem sou eu”, “o que realmente gosto”, “o que me realiza” em vez de “como me vêem”, “o que devo fazer”, ”o que esperam de mim” levou-nos à consciência de que o patinho feio, afinal, de feio não tem nada, muito pelo contrário.

É certo que ainda existe um caminho a percorrer até ao nosso destino, existem questões que ainda não dão descanso à Luisa, contudo, é certo também que o ponto de partida há muito que ficou para trás.
Tal como a Luisa viveu quase 40 anos da sua vida a desejar ser como os outros, a tentar ser perfeita, a tentar ser o que achava que os outros esperavam de si, deixando a sua identidade esquecida, também muitas outras “Luisas” o fizeram e ainda fazem.
Muitas outras “Luisas” vivem na esperança do que será o amanhã, o amanhã em que se sentirão amadas, ao mesmo tempo que deixam o presente passar… Não o vivem. Perdendo a oportunidade de serem felizes hoje!
Perdendo a oportunidade de procurar dentro delas a felicidade, enquanto a procuram constantemente no exterior!
A todas as “Luisas” sugiro que não sejam tão duras consigo próprias! Sugiro que se permitam olhar para “dentro”, aceitando-se!
Só aceitando é possível amar.

Como complemento a esta crónica sugiro a leitura das cronicas Apaixone-se por si! Parte I e II



Débora Água-Doce   
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23/05/13

O segredo da felicidade



Há uma antiga história sobre os Deuses e a Felicidade. Conta essa história que os Deuses tinham receio que os humanos fossem perfeitos, pois, se assim fosse, deixavam de ser precisos. Posto isto, decidiram reunir-se para decidir o que fazer. O mais sábio dos Deuses disse:
- Vamos dar aos Homens tudo o que pudermos, menos o segredo da felicidade.
- Mas os Homens são seres inteligentes, vão acabar por descobrir o segredo. – disseram os restantes Deuses.
- Não, isso não acontecerá! Vamos esconder a felicidade num sitio onde eles nunca a irão encontrar: dentro deles! – disse o sábio.

A felicidade está dentro de si!
A felicidade está dentro de mim!
A felicidade está dentro de todos nós!
Procure-a dentro de si! É errado procurar a felicidade no que o rodeia.
Muitas vezes pensamos: Quando acabar o curso, serei feliz! Quando casar serei feliz! Quando tiver filhos serei feliz! Quando mudar de emprego serei feliz!
Focamo-nos no que será o amanhã e deixamos o presente passar… Perdemos a oportunidade de hoje sermos felizes!
Perdemos a oportunidade de procurar dentro de nós a Felicidade enquanto a procuramos constantemente no exterior!
Olhe para dentro de si e encontre-se!
Todos nós temos a capacidade de transformar o mau em bom, os obstáculos em oportunidades, as discussões em momentos de aprendizagem, as regras impostas em regras úteis, o inevitável como fonte de crescimento.
Aceite-se e viva com paixão de ser como realmente é!
Se não está a fazer o que gosta, se acordar todos os dias de manhã é cada vez mais difícil e é um grande problema para si, pense no que está a fazer. Precisa amar o que faz e o que tem!
O segredo para a Felicidade?
Procure a resposta dentro de si!


Débora Água-Doce
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14/05/13

"Renascer..." - Conto Terapêutico




A possibilidade de voltar a sonhar!

“Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes, mas não me esqueço de que a minha vida é a maior empresa do mundo. E que posso evitar que ela vá á falência.
Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver, apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.
Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e se tornar um autor da própria história.
É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no recôndito da sua alma. É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.
Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos. É saber falar de si mesmo. É ter coragem para ouvir um “não”. É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.
Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo…”


Hoje decidi trazer-vos uma história que acompanhei. Uma história fantástica que partilho na esperança de dar esperança a outras histórias que ainda não conheço.

Um caso de desesperança, condenado pelo limite temporal desde o primeiro contacto. Um caso onde a necessidade de mudança, emerge a um ritmo estonteante. Onde é claro contudo, a esperança de se sentir melhor, de se sentir compreendida… Perdida de si própria, age em zanga constantemente, com uma raiva que transpõe em actos, sem capacidade de sentir, de pensar, de relacionar-se… Iniciámos um diálogo, dando a oportunidade de se exprimir, sentir e vivenciar a raiva e a zanga, ali, na relação. Assim começámos a nossa viagem ao Mundo dos Sonhos, a viagem ao “eu” esquecido. Sendo o EMDR (Eye Movement Desensitization and Reprocessing) uma terapia breve e focal de dessensibilização e reprocessamento de experiências emocionalmente traumáticas, encontrámos aqui com o desenrolar do processo, um espaço para relativizar a sua vivência infantil e abrir portas para o presente, emergindo os recursos interiores que permitiram transformar a dor e perda em aceitação e compreensão. Uma viagem preenchida de relação com um destino: o Sonho!


Os Sonhos… Um caminho para a Felicidade!

Quando eu era pequena, gostava de me sentar num sítio confortável e sossegado a pensar no que iria ser quando crescesse. Bastava-me a companhia do meu Urso de Peluche e uma imaginação repleta de Sonhos, para me sentir Feliz!
Lembro-me dos meus pais acharem que eu era “estranha” por andar sempre no “meu mundo”, ou como eles diziam “no mundo da lua”, mas também me lembro de desde pequena lhes responder “no dia em que deixar de sonhar, deixo de ser feliz”!
Hoje, adulta, já não sonho tanto como antes, mas continuo a fazê-lo sempre! É por continuar a sonhar e sentir que no dia que o deixar de fazer deixo de ser feliz, que trago a necessidade de “sonhar acordado” para as minhas intervenções psicoterapêuticas.
O caso que vos vou contar, configurou-se logo desde o início como uma luta desenfreante. Ainda me lembro da nossa primeira consulta, onde a Luana (nome fictício) com um olhar assustado e apreensivo me dizia que eu era a sua ultima esperança para sair do “buraco” em que se encontrava, salientando logo de seguida, as limitações que encontrava à terapia “Já tive ajuda profissional, mas a psicoterapia demorava tanto tempo a mostrar resultados… Era tão doloroso falar do passado, que ainda me concentrava mais em coisas negativas… Desisti de alguns terapeutas e tenho a noção que outros também desistiram de mim, porque me viam como um caso perdido”…”Vivo ansiosa e focada em resultados. Quando as coisas não correspondem às minhas expectativas, vou abaixo e começo a pensar mudar para outra coisa sem terminar o que comecei”…”tenho pouco mais de dois meses para a terapia”(sic).
Confesso que fiquei “insegura” perante a tamanha responsabilidade que acabara de “cair” em mim, contudo, rapidamente me lembrei de que o meu trabalho não deve ficar aprisionado pela história passada de quem me procura. A minha responsabilidade é a capacidade de dar resposta, não apenas através de palavras, mas sim, através de afectos, de emoções, e de Relação!
E assim, demos início a este encontro “fugaz”, onde a relação abriu caminho para os Sonhos.


A mente “mente” e a verdade não advém apenas, da razão.

Iniciamos então o nosso caminho até ao Sonho…
Dizia a Luana: “Porque é que eu falho em todas as relações? Será que é por ser muito exigente com os outros e ter medo de me apegar? Eu preciso de atenção constante… Senão fico com dúvidas de que as pessoas realmente gostem de mim e em que medida…” Continuou:
“Durante toda a minha vida, sofri de problemas de auto-estima e senti sempre uma necessidade muito grande de ser aceite pelos outros. Tentava sempre chamar a atenção tornando-me exemplo de comportamento e fonte de sabedoria”…”olho para o meu passado e só me consigo ver angustiada e injustiçada, porque só me recordo de memórias negativas”…”sou insegura, porque passo a vida a pensar que há algo de errado comigo, porque os outros não me vêm com bons olhos”…”não gosto de muitas coisas em mim e sei que os outros também não vão gostar porque estou condenada a viver no meu mundo”…”não confio em ninguém porque acho que as pessoas em algum momento me vão desapontar e magoar...”(sic).
Luana tentava interpretar tudo “fiz isto porque”…”sou assim porque” tentava explicar a vida, explicar o comportamento, as emoções, as reacções, acabando por se desresponsabilizar tendo em conta que a “culpa” seria sempre externa.
Com falta de esperança reflectida no olhar, acrescentou: “neste momento voltámos ao ciclo mais repetido: depressiva, falida e sem fantasias para o futuro”…” preciso de fazer as pazes com o meu passado, viver o presente relacionando-me de forma saudável comigo e com os outros e conseguir construir o meu futuro passo a passo sem grandes ansiedades”(sic).
Aqui é visível a sua tristeza e descrença. Contudo, o sofrimento não é um sintoma nem um diagnóstico, mas sim uma experiência (vivida) complexa para quem o vivencia. Neste sentido, há que ir ao encontro da singularidade da pessoa, envolvendo-a nas situações mais prementes do seu projecto de vida (Coimbra de Matos, 2007).
Quando abraçamos um caso, abraçamos uma vida e com ela o exercício da prática clinica, que no meu caso tem inspiração Psicanalítica, pois foi essa a minha formação de base, contudo, não permito que o passado do paciente lidere as sessões, é a situação presente que é urgente proclamar, não devemos ficar presos aos temas da parentalidade, como se estivéssemos a encontrar explicações para desresponsabilizar o paciente, impedindo-o de mudar.
Quando alguém procura um Psicólogo, fá-lo com a esperança de se sentir melhor, de se sentir compreendido… Normalmente são pessoas insatisfeitas, sendo que algumas até pensam que têm algum problema pois sentem-se diferentes dos que as rodeiam, outras têm medos, outras são muito seguras mas têm vontade de mudar algo e ainda há as que estão tão medicadas que já nem sabem quem são. Sendo comum a todas elas, a necessidade de voltar a Sonhar!
A terapia é um processo que deverá levar uma pessoa a reatar consigo própria e não a afastar-se de si própria, o objectivo da terapia não é somente a explicação, é mais do que isso (porque na escola primaria… porque os pais… porque a primeira namorada), se o objectivo da terapia se prender à explicação, pode levar a que as pessoas se sintam intimidadas e incapazes, o que gera a necessidade de procurar um novo psicólogo e muitas vezes, essa procura é feita com medo de que volte a correr mal e já com um sentimento de conformismo.
Luana chega até mim com uma enorme descrença nos Psicólogos, já conformada com a possibilidade de nada puder mudar.
- “É urgente que nos apaixonemos, Luana!”
- “Como Dra?”
- “É urgente que nos apaixonemos pela mesma coisa!”
- “Como assim, Dra?”
- “É urgente que nos apaixonemos pelo seu renascimento!”
- (Silêncio…)
Através da intimidade, através da relação, desenhamos a Terapia. Claro que nem sempre conseguimos ajudar todas as pessoas, mas fazemo-lo sempre com paixão e da melhor forma possível.
Neste caso que aqui partilho, usei e abusei da relação.
Num momento crucial da nossa relação, é partilhado um medo, ou melhor, uma fobia “tenho pavor de cobras”…”quando estou a andar na rua, se algo se mexe num jardim, desato a correr”…”é das coisas que mais perturbam o meu dia-a-dia”(sic).
Mas de onde viria este medo? Era um simples medo, ou teria algo subjacente a ele?
Começamos então a “viagem” ao mundo do Sonho!


Resultados em 8 sessões? Como?

Tínhamos agora diante de nós 8 sessões para pensar alguma coisa… Apenas 8 sessões, devido ao facto de Luana ter de partir em Trabalho… Mas como?
Tendo em conta toda problemática envolvente, o que poderíamos fazer?
Perante o pedido, decidi aplicar o método EMDR (Eye Movement Desensitization and Reprocessing) que quer dizer Dessensibilização e Reprocessamento através do Movimento Ocular. Trata-se de um método de dessensibilização e reprocessamento de experiências emocionalmente traumáticas por meio de estimulação bilateral do cérebro, a qual promove a comunicação entre os dois hemisférios cerebrais.
O processamento natural da informação é reposto e assim após uma sessão com EMDR, a percepção psicosensorial já não se manifesta como antes quando o acontecimento traumático é trazido à mente. As memórias ainda são recordadas mas o efeito perturbador desaparece. O EMDR recria o que acontece naturalmente durante o sonho ou o sono na fase REM (Rapid Eye Movement) e pode ser encarado como uma terapia de base fisiológica, que ajuda a pessoa a encarar e viver os traumas de uma forma nova e sem os efeitos perturbadores.
É um poderoso método psicoterapêutico. Um número substancial de estudos científicos já provou a eficácia do EMDR. Os resultados destes estudos indicam que se trata de uma técnica muito eficiente e que os resultados são duradouros a longo prazo.
Esta nova abordagem para o tratamento de traumas emocionais foi desenvolvida pela Drª Francine Shapiro, psicóloga americana, na década de 80, e desde então tem sido um dos métodos psicoterapêuticos mais amplamente pesquisados nos EUA, com recomendação especial da Associação Americana de Psiquiatria.
Fruto de larga pesquisa, as possibilidades de intervenção foram ampliadas passando a abranger as fobias, os transtornos do pânico, depressão e enfermidades psicossomáticas (Shapiro, 2007).
Optei por esta técnica tendo em conta que se configura como uma terapia breve e focal, parecendo-me uma terapia adequada ao caso que se apresenta.
Começamos por recolher a sua história de vida, o que se revelou bastante perturbador para a Luana “sabe Dra, a minha vida não foi fácil…”…”vivi na Guiné até aos 11 anos”…”vim para cá com a minha mãe, mas ela não tinha tempo para mim devido ao seu trabalho (era diplomata)”…”acabei por ficar com um tio meu…”…”este tio marcou a minha vida”…”lembro-me de ele me por um dia a dormir no chão, no sitio onde dormiam os animais”…”não me lembro de mais nada até aos meus 12 anos”…”é como se tivesse perdido a memória”(sic).
- “Sim, eu compreendo”. Disse-lhe isto tranquilamente, olhando-a nos olhos, tentado que o monólogo de “dissabores” se transformasse em partilha.
Foi assim que Luana, começou a relembrar aquilo que já tinha esquecido que sabia: a sua capacidade de transformação da sua relação com os factos. Situação que a tinha vindo a impedir de vivenciar trocas entre si e os outros.
Senti que Luana necessitava de aceder aos seus recursos interiores que permitiriam transformar a dor e perda em aceitação e compreensão.
Esta mulher “perdeu” o afecto aos 12 anos - viveu desde essa altura e até aos seus 28 anos num convento, longe dos pais.
Hoje, com 31 anos, refere “acho que desgostei tanto do meu passado que acabei por apagar algumas partes”(sic).

Iniciamos a intervenção EMDR, onde partimos com a fobia das cobras onde a Luana associa sobre si a cognição negativa “eu não posso confiar em ninguém ”.
Foi um processamento doloroso, as primeiras sessões foram pautadas por muitas lágrimas, era incrível o medo associado às cobras!
Com o desenrolar do processo, foram surgindo associadas outras imagens em que ficava patente o não poder confiar em ninguém.
Foi observando as situações e pensando sobre elas de forma diferente “aprendi que não faz sentido usar o tudo ou nada”…”em toda a minha vida, cruzei-me com pessoas que foram muito boas e queridas comigo, logo existem pessoas confiáveis, por isso posso escolher em quem confiar”…”aprendi a olhar para os outros sem necessidade de estar constantemente a descrevê-los ou julga-los”…”tal como aceitei que eu própria sou um conjunto de coisas positivas e outras desafiantes”…”aprendi que no fundo cada um de nós apreende a realidade com base nas suas vivências pessoais, que por serem pessoais são diferentes”
A evolução da Luana foi estonteantemente rápida. Teve um “clique” interior e usou-o!
No final da nossa viagem, quando o Sonho espreitou, olhou para mim e disse-me “após estes 2 meses de terapia, se tivesse que resumir a experiencia diria: revelador e libertador!”…”Revelador, porque acedi a muitas coisas que guardava no meu inconsciente”…”Libertador, porque deixei cair a maior parte das concepções que tinha sobre mim e sobre o mundo”…”vivia presa em vivências isoladas, tristes e até incapacitantes”…”aprendi que posso viver o que sou, o que fui é inalterável e o que serei não depende apenas da minha acção, mas também de conjunturas sobre as quais muitas vezes não possuo informação suficiente no aqui e agora”(sic).
Senti o meu sorriso acompanhar o seu, senti que, o pouco que tínhamos feito, foi muito! Senti que ambas conseguimos voltar a Sonhar!



Assim terminou o nosso encontro terapêutico e a história que queria partilhar consigo. A Luana começou este percurso, zangada e assustada. Perdida de si própria, agia em zanga constantemente, com uma raiva que transpunha em actos (contou-me várias atitudes que teve para com a sua irmã e amigos), sem capacidade de sentir, de pensar, de relacionar-se…
Foi então que a convidei ao diálogo, dando-lhe oportunidade de exprimir, sentir e vivenciar a raiva e a zanga, ali, na relação comigo.
Com a abordagem do EMDR, a Luana encontrou espaço para relativizar a sua vivência infantil e abrir portas para o presente.
Chegámos ao fim, felizes! Não por termos concluído algo, mas por termos iniciado algo que poderá ajudar a Luana a Sonhar! Por termos conseguido alcançar a capacidade de pensar sobre si com carinho.


Débora Água-Doce
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10/05/13

Apaixone-se por si! Parte II





Continuemos a grande viagem até ao “amo-me”…

Hoje trago-lhe um exercício prático: “espelho meu, espelho meu”.
Comece o dia a olhar para o espelho e diga: “Gosto de ti. O que posso fazer hoje por ti, para que tenhas um dia feliz?”
Ouça o seu “eu” mais íntimo e siga os seus conselhos.
Muitas vezes estamos tão habituados a depreciar-nos e a criticar-nos que temos dificuldade em aceitar uma palavra querida e motivadora, contudo, é esse o caminho, aceitar o mimo por nós!
Se durante o dia algo não correr como esperava, volte ao espelho e diga: “gosto de ti na mesma”.
A nossa vida está sempre a oscilar entre o positivo e o negativo, mas o gostar de nós é o sentimento que deve prevalecer em qualquer situação.
Se durante o dia lhe acontecer algo positivo, volte ao espelho e diga: “obrigado”. Aceite a vivência das emoções positivas!

Não devemos esperar que esteja tudo bem connosco para nos amarmos! Vamos sempre estar insatisfeitos com qualquer coisa, a insatisfação é algo que precisamos urgentemente desconstruir!
Tal como disse na crónica anterior, é preciso amar-me para amar o outro. Esgotamo-nos na tentativa de mudar o outro porque algo nãos nos agrada, quando na realidade a mudança tem de partir de nós! A nossa mudança potencia a mudança de quem nos rodeia!
Não devemos viver a nossa vida em função dos outros, não devemos viver para agradar os outros. Primeiro temos de nos agradar! Quando morrermos não vamos levar nenhuma dessas relações connosco, apenas levaremos a capacidade que tivemos de nos amar (nós somos o personagem principal da nossa vida).
A nossa experiencia de vida não é adquirida pelos outros, mas por nós! Cada um de nós cresce com as suas aprendizagens. Aprendemos através das nossas próprias experiências. Se deixamos a nossa vida nas “mãos” de outros, nas “mãos” de um parceiro negativo, com personalidade dominadora, apenas conseguiremos sair dessa relação se nos amarmos. Caso contrário, viveremos infelizes com medo de ninguém nos amar, quando na realidade somos o primeiro a negar o amor incondicional...
Atingiremos o amor incondicional quando começarmos a aceitar quem somos e aprendermos a sentir AMOR por NÓS.
Ame-se!!!


Um abraço,
Débora Água-Doce 
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08/05/13

Psicoterapia & Loja da Verdade



“O Homem passeava pelas ruazinhas da cidade provinciana. Como dispunha de tempo, parava alguns instantes à frente de cada montra, de cada loja, de cada praça. Ao virar de uma esquina, encontrou-se, de repente, perante um modesto estabelecimento, cuja montra estava vazia. Intrigado, aproximou-se do vidro e encostou a cara para poder  espreitar lá para dentro… No interior, via-se apenas um cartaz escrito à mão, a anunciar: Loja da Verdade.
O homem ficou surpreendido. Pensou que era um nome a brincar, mas não conseguiu imaginar o que lá venderiam.
Entrou.
Aproximou-se da rapariga que estava ao balcão e perguntou:
- Desculpe, esta é a loja da verdade?
- É sim, senhor. Que tipo de verdade procura? Verdade parcial, verdade relativa, verdade estatística, verdade completa?
Portanto, vendia-se ali a verdade. Nunca imaginara que fosse possível. Entrar numa loja e sair com a verdade era maravilhoso.
- Verdade completa – respondeu o homem, sem hesitar.
«Estou tão cansado de mentiras e falsificações», pensou. «Não quero mais generalizações nem justificações, enganos ou fraudes.»
- Verdade plena! – ratificou.
- Está bem, meu senhor. Siga-me.
A rapariga acompanhou o cliente a outro sector e, apontando para um vendedor de rosto sério, disse-lhe:
- Aquele senhor vai atende-lo.
O vendedor aproximou-se e esperou que o homem falasse.
- Venho comprar uma verdade completa.
- Ah. Perdoe-me, mas o senhor sabe o preço?
- Não, qual é? – respondeu casualmente. Na realidade, sabia que estava disposto a pagar fosse o que fosse pela verdade absoluta.
- Se o senhor a levar – disse o vendedor – o preço é nunca mais ter paz de espirito.
O homem foi percorrido de alto a baixo por um arrepio. Nunca imaginaria que o preço fosse tão elevado.
- Obri… Obrigado… desculpe… - balbuciou.
Deu meia volta e saiu da loja, de olhos postos no chão.
Sentiu-se um pouco triste ao perceber que ainda não estava preparado para a verdade absoluta, que ainda precisava de algumas mentiras para ter descanso, alguns mitos e idealizações no quais se pudesse refugiar, algumas justificações para não ter de se enfrentar a si mesmo…
«Talvez um dia mais tarde», pensou.”

Muitas vezes as pessoas perguntam-me o que leva alguém a fazer psicoterapia, o que as distingue dos demais…
Às vezes pensam que todos beneficiariam de psicoterapia…
Mas será que é mesmo verdade que qualquer pessoa pode beneficiar de um processo terapêutico?
Claro que sim! Qualquer pessoa que queira beneficiar-se poderá tirar proveito da terapia.
Contudo, o que é benéfico para uma pessoa, não é forçosamente para outra pessoa. Pode acontecer, e é justo que assim seja, que alguém considere o preço de determinado beneficio demasiado alto. É legitimo que cada pessoa decida quanto quer pagar em troca do que recebe, e é lógico que cada um escolha o momento em que deseja receber o que o mundo lhe oferece, seja a verdade ou qualquer outro beneficio.
Por isso, quanto à pergunta, se determinada pessoa deve ou não fazer terapia, a resposta é:
- Só ela poderá sentir ou não essa necessidade! Não interfira.

Débora Água-Doce
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04/05/13

Culpa!?



Não te consigo descrever na tua essência…
É difícil perceber de onde surgiste e o porquê de me dominares em determinados momentos, da forma como dominas. Fazes-me sofrer e prejudicas-me!
Não me deixas libertar de coisas que, no fundo sei que não sou culpada, mas que insistes em me querer culpar.
Mas porquê? Pergunto-me.
Porque é que existes? Porque me causas dor? Porque não me deixas ter a “lucidez” que preciso e ao invés influencias-me constantemente?
Quando te sinto pesas-me nos ombros e embrulhas-me o estômago, fazes-me doer… Bloqueias-me o pensamento e impedes-me de tomar decisões. Provocas-me muita confusão mental e demasiada ansiedade.
No fundo sei e sinto que na maioria das vezes que sinto, não deveria sentir. Sei que não sou culpada de muitas coisas pelas quais me culpo.
Não sei… Talvez se não existisses os meus problemas tivessem uma menor dimensão no meu pensamento.
Tento fazer o melhor que sei pelos que me são próximos, mas tu, dizes-me que não é o suficiente. Só queria que me deixasses viver a minha vida de uma forma mais liberta, mais simples.
Não tenho culpa de as pessoas serem como são! Eu também sou como sou e tentei procurar ajuda para resolver aquilo que não gosto em mim ou penso que devo melhorar.
Talvez seja um engano mas penso que se me desses tréguas, podia ser mais feliz.
Mas quem é que será que deve dar tréguas a quem?!

Estas são as palavras que libertaram as emoções sentidas pela “Maria” com relação ao que tem sido para si viver com Culpa.
A “Maria” é uma mulher igual a tantas outras, contudo, conhece bem as suas fragilidades e essa consciência abriu o caminho para a procura de bem-estar!
Ao longo da nossa vida temos momentos de paz e felicidade, mas temos igualmente a nossa porção de dor. Acontecem coisas que não esperávamos, que não merecíamos, que não entendemos. A nós e àqueles que amamos. Isso Dói…
Há, porém, o facto curioso de que em muitas ocasiões somos nós mesmos a fazer as coisas que depois nos fazem sofrer.

"Quando eu vivia num dos campos de concentração da Alemanha Nazi, pude observar que alguns dos prisioneiros andavam de barraca em barraca, consolando outros, distribuindo as suas últimas fatias de pão. Podem ter sido poucos, mas ensinaram-me uma lição que jamais esqueci: tudo pode ser tirado de um homem, menos a última das suas liberdades – escolher de que maneira vai agir diante das circunstâncias do seu destino", escreveu Vicktor Frankl.

Existe em cada um de nós a possibilidade de escolha, a possibilidade de ser Feliz!

Débora Água-Doce
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03/05/13

Apaixone-se por si! Parte I





Preparado para a viagem que tem como destino: “Amar-se”?
Quando escrevi a crónica “Amar-se”, fiquei de lhe trazer algumas dicas que facilitam esse caminho.
Hoje, trago-lhe algumas :)

O mais importante para apaixonar-se por si, talvez seja parar de criticar-se! Muitas vezes temos tendência para criticar-nos, pintamos o pior cenário possível sobre nós próprios, chegando a boicotar projectos e situações. Quando aceitamos que estamos bem, independentemente da situação é mais fácil começar a mudar.
É extremamente importante validar a nossa auto-estima e acreditar em nós próprios. Quando não acreditamos em nós, quando não nos aceitamos, tendemos a sentir-nos ainda mais inseguros.
Ser inseguro é algo próprio do Ser Humano, certamente, mesmo que se considere uma pessoa segura, em algum momento da sua vida sentiu-se inseguro.
Procuramos uma perfeição que não existe e a busca dessa perfeição bloqueia-nos, impede-nos de viver!
O segredo está em descobrirmos o nosso “eu”, a nossa individualidade, o que nos caracteriza, o que nos distingue dos outros.

É urgente pararmos com os pensamentos negativos!
Tendemos a gerar pensamentos que potenciam um desconforto maior sobre algo menos positivo que aconteceu, é como se fizéssemos com que as coisas parecessem piores do que na realidade são. É angustiante viver assim…
Por exemplo: no trabalho, o chefe faz um reparo sobre alguma situação e automaticamente surge o pensamento “estou prestes a ser despedido”…”que vai ser da minha vida?”.
Muitas vezes levamos estes pensamentos negativos para a cama e nem à noite temos “paz”, não conseguimos dormir com tantas preocupações… Vivemos dominados pelo medo.
Uma forma de contrariar o pensamento negativo consiste em focar o pensamento em outra coisa. Por exemplo: quando surgir um pensamento negativo que teima em permanecer, comece por concentrar-se na respiração e logo depois foque-se numa imagem que lhe agrada (um jardim, uma foto, uma paisagem, uma praia, qualquer imagem que lhe agrade).

Esta semana treine estas dicas, e não perca as seguintes na próxima semana.
Até lá, fique bem!

Um abraço,
Débora Água-Doce

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01/05/13

“A mulher só e o príncipe encantado”





As relações têm sido o tema principal abordado nas sessões de Psicoterapia de quem me procura. A elas estão sempre associadas inúmeras emoções mas também crenças, sobretudo, a crença no “Príncipe Encantado”.
Como tal, hoje trago-vos um artigo baseado no autor Jean-Claude Kaufmann que remete para a trajectória que a mulher teve de fazer e, nalguns casos, ainda faz, para sair do seu papel tradicional em que o marido se torna “a sua vida”, na medida em que é dele que ela depende, para crescer na sua autonomia pessoal e profissional.

Os casamentos, ou melhor dizendo, como referem os etnólogos, as alianças, assumem desde tempos remotos uma importância extrema na formação das sociedades humanas na medida em que, para além das suas funções sociais, ele evita as guerras entre as diferentes comunidades.
Devido a questões de ordem pública e interesse colectivo, algumas sociedades utilizavam o casamento simplesmente como forma de ligar famílias ou grupos sociais diferentes. A questão da união é então considerada fulcral, na medida em que torna os dois indivíduos envolvidos no casamento, num só. E nesta união está implícita uma comunicação entre os indivíduos, mas também uma abertura à autonomia individual de cada um.

Príncipe encantado ou marido?
“A construção do casal tornou-se difícil, mas não é proibido ter esperança (é justamente, aliás, porque as esperanças são mais fortes que o casal se tornou de construção difícil) é preciso ter esperança e é preciso sonhar para dar forma ás expectativas: quem é aquele que se deseja encontrar? É aqui que intervém a figura imaginária do príncipe encantado, filtro através do qual se desempenham os cenários do futuro” (Jean-Claude Kaufmann)
Ao passo que antes a concepção de príncipe encantado passava pelo “filho do rei que aparecia no cavalo branco, hoje em dia é diferente, os requisitos de um príncipe encantado passam também pela afectividade, o ser e demonstrar carinho leva a uma nova concepção de príncipe encantado, onde o sonho e o imaginário tem mais probabilidade de passar apenas do sonho tornando-se uma “realidade real” e não uma “realidade imaginária”, onde “quanto mais forte é o impulso (até à loucura), mais o príncipe é verdadeiro”.
Os requisitos de príncipe encantado passam assim por alguém com que se possa “vibrar, partilhar coisas profundas” ou então a outra hipótese será o celibato por não existir príncipe encantado com estas características.
A fuga ao quotidiano faz com que estas representações façam do príncipe algo muito físico onde ele é aquele que sabe compreender e leva a um reconforto imediato.
“Para a mulher madura (mais fascinada pela sua capacidade de compreensão e não tanto pela sua beleza), ele tem um aspecto mais humano, tornando-se extraordinário quando persistem em continuar a ser o verdadeiro príncipe. Para a mulher divorciada, ele torna-se mais prosaicamente “o homem ideal” ou “homem da minha vida”, descrito segundo uma lista de critérios bastante precisos.
Assim, a eventual formação de um casal não é simples nem fácil. O príncipe passa para segundo plano, depois das questões “administrativas”, uma vez que “em jogo” estão também ligações afectivas e todo um rol de sentimentos.

De facto, a vida a sós é um dos aspectos da vida social em evolução, assim como a família. Esta última, e como refere o autor, encontrando-se no entanto, numa encruzilhada em que a necessidade de autenticidade e encontro com o eu se confronta com a partilha e a vida com o outro. O interior da vida familiar torna-se então uma “luta” entre a possibilidade de realizar desejos pessoais e de aspirar à autonomia mas ao mesmo tempo, de obrigar o indivíduo a confrontar-se com o desconhecido e a estar intimamente ligado a alguém.
Assim, pode dizer-se que a essência, quer da vida a sós, quer da família é o conhecimento do eu, a autonomia do sujeito, bem como a criação de laços afectivos. Quer num caso, quer noutro, o que está em causa é a afirmação, embora por vezes moderada, da autonomia. 

Débora Água-Doce
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