13/03/17

O que andamos a fazer com “quem somos”?






Vou começar por contar-vos uma história… Uma história escrita por Saint-Exupéry! Em Terra aos Homens, conta-nos como o piloto Henri Guillaumet se perdera na cordilheira dos Andres.

“Durante três dias, ele havia caminhado sempre a direito no meio de um frio glacial. Por fim, caiu, de bruços, com a cara na neve. Aproveitando o momento de repouso inesperado, compreendeu que, se não se levantasse imediatamente, nunca mais se conseguiria por de pé. Mas, esgotado até à alma, já não lhe apetecia fazê-lo. Preferia agora uma morte suave, indolor, calma. Mentalmente, disse adeus à mulher, aos filhos. No seu coração, sentiu uma ultima vez o amor por eles. Depois, uma ideia apoderou-se dele bruscamente: se não encontrassem o seu corpo, a mulher ia ter de esperar quatro anos para receber o seguro de vida dele. Abrindo os olhos, viu então uma rocha que emergia da neve cem metros adiante. Se se arrastasse até lá, o seu corpo seria uma pouco mais visível. Talvez o encontrassem mais depressa. Por amor pelos seus, erguera-se e recomeçara a andar. Mas agora, era levado pelo seu amor. E não parou mais, percorrendo ainda mais de cem quilómetros na neve antes de chegar a uma aldeia. Mais tarde, diria: “o que fiz, nenhum animal do mundo teria sido capaz de fazer.” Quando a sua sobrevivência deixou de ser motivação suficiente, foi a consciência dos outros, o seu amor, que lhe forneceram a força para continuar”.

Costuma-se dizer que a vida é uma luta, mas uma luta que não tem valor quando travada apenas por si próprio. Exemplo disso é a história acima mencionada, foi o cuidar dos outros que ajudou o piloto a lutar pela vida.

“Se eu não tratar de mim, então quem é que trata? E se eu só tratar de mim, então sou o quê? E se eu não me preocupar com isso agora, preocupo-me quando?” Hillel, O Tratado dos Pais
Fazem-lhe sentido estas questões?


Nenhum de nós escolhe onde nascer… Nascemos. Impõem-nos uma vida. Não temos como escolher quem fará parte da nossa Família ou quem será a base da nossa existência. Já vem definido… Definição essa que tem um enorme peso na nossa identidade. Mas não a determina por si só.
Crescemos. Tornamo-nos Crianças. Vivemos as nossas histórias de encantar… Criamos mundos cor-de-rosa, daqueles que acreditamos que são a realidade.
Crescemos. Tornamo-nos Adolescentes. Começamos a fazer escolhas, a ter consciência do que queremos, das pessoas que queremos connosco. Os nossos sonhos de meninos começam a deixar de fazer sentido! Constroem-se novos sonhos!
Crescemos… Tornamo-nos Adultos. Olhamos em redor e em determinado momento vemos que somos um prolongamento da sociedade em que fomos inseridos. Damos por nós a fazer escolhas de acordo com o que é socialmente correto, de acordo com o que é expectável, de acordo com o que a publicidade sugere, com a ideia de que somos únicos ao adquirir algo cujo slogan é “seja você mesmo”, apesar de sabermos que mais pessoas terão acesso ao mesmo produto.

Hoje em dia, estamos cada vez mais voltados para o individualismo, o que nos leva a ter como valores a Autonomia, a Independência, a Liberdade e… A Expressividade do Eu “eu isto”…”eu aquilo”…”porque eu”…”eu quero”…
Então e as relações?
Já reparou na dedicação que coloca no seu trabalho? Dedica-se com o mesmo empenho nas relações sociais?

Nunca tivemos tanta liberdade como agora. Nunca desistimos tanto das relações como agora. Já pensou nisso?
Quando nos apercebemos dessa realidade, quando nos apercebemos do verdadeiro significado da vida e do que temos estado a fazer com ela, percebemos que pagamos um elevado valor pela independência: o isolamento, o sofrimento e a perda de sentido.

Esta é a realidade de muitas pessoas que nos chegam ao consultório, inundados pela rigidez do que é culturalmente expectável.
Esta é a realidade daqueles que têm oportunidade de VIVER mas escolhem: “É mais fácil”… “Dá menos trabalho”…“É mais barato”…“Parece melhor”…”Assim vão gostar mais de mim”…”É o que acham que devo fazer”…”É o que esperam de mim”.
Esta é a realidade de quem não é “livre”.
Já dizia a Autora Isabel Abecassis Empis, “Bem-aventurados… Os que Ousam”!

Para Viver, há que OUSAR!
Ouse sentir!
OUSE VIVER!!!
Ouse Partilhar!




Débora Água-Doce
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